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22/11/2015

A esperança que resulta do desprendimento de nós próprios




Caros visitantes virtuais,

Desta vez escrevo-vos sobre desprendimento. Poderia também escrever sobre humildade, sobre autenticidade, sobre veracidade, sobre entrega, sobre libertação, sobre altruísmo ou sobre vários outros caminhos similares que nos conduzem a uma leveza interior que nos torna mais disponíveis para os outros e, sempre mais felizes.
Ontem fui ver o filme "O Estagiário" protagonizado por Robert de Niro e Anne Hathaway, ambos de idades muitos diferentes e excecionais, um já com grande história de sucesso cinematográfico e ela com história recente de já alguns sucessos acumulados. Este filme magistralmente mostra-nos a grande riqueza de termos alguém experiente na vida com toda a aprendizagem e que os muitos anos já passados permitiram fazer, alguém que já não precisa de provar nada aos outros nem a si próprio, alguém que entre os outros fala uma linguagem diferente, a linguagem da senioridade ou poderíamos simplesmente dizer, a linguagem do desprendimento de carreira, de ambições, de reconhecimento ou de sucesso. Alguém que justamente por nada procurar encontrou tudo o que precisava e pelo caminho deu tudo o que os outros precisavam de receber: autenticidade e força para caminhar e lutar por um sonho, pelas suas vidas, pela relação com os outros. 
E que mais importa verdadeiramente senão a relação com os outros? 
De onde nos vem a verdadeira felicidade senão na relação com os outros e no verdadeiro e genuíno encontro com eles?
O filme é fabuloso e recomendo-o vivamente, é uma grande lição de aprendizagem em que reconheci coisas muito bonitas que a idade nos traz e que nos gratificam muito. Uma delas que constitui grande fonte de felicidade é o desprendimento. Essa grande lição vem-nos também dos místicos que por carisma próprio e profunda fé e dedicação total à mesma descobriram esse caminho libertador das ansiedades humanas de perseguição do reconhecimento pessoal e profissional, da admiração humana, do aplauso social. Não, não são loucos, embora muitos assim o considerem, são pessoas que despertaram para valores que descobriram que os tornavam mais leves com esse desprendimento de si próprios, de atitudes egoisticamente auto-centradas e, por isso mesmo, redutoras, conducentes a visões parcelares e limitadas da beleza da vida, fontes de pressão e ansiedades pessoais, e também frequentemente de desilusões e frustrações porque se descobre sempre alguém que consideramos melhor que nós. A futilidade e inutilidade da comparação humana aprende-se com a idade. É a idade que nos ajuda a abrir os olhos para os outros e a descobrir a sua riqueza e beleza tão diversificada que há lugar para todos. E, nessa descoberta da grandiosidade da variedade, diversidade e amplitude de talentos e riquezas humanas abrem-se os olhos da alma e do espírito para admirar O OUTRO, A OUTRA.
Caro visitante virtual, hoje convido-o à aventura de arriscar soltar-se do seu narcisismo que habita em todos nós e nos escraviza e condena à infrutífera comparação com os outros à nossa volta e nos convida à competição e ao aplauso de nós próprios e condenação do outro em amargas conversas connosco próprios e com os outros que só destilam má-língua, fel, incompreensão, injustiça, mentira e desvalorização de quem profere palavras destruidoras em relação ao seu semelhante até descobrirmos que quando destruímos o nosso semelhante estamos primeiro que tudo a destruir-nos a nós próprios.
Onde nos conduz a ambição desmedida, a conquista a todo o preço do sucesso?
Onde nos conduz a exibição da nossa própria imagem seja ela física, cultural, artística ou intelectual de qualquer natureza?
Onde nos conduz a procura do pedestal profissional e das medalhas e méritos que depois apenas se destinam a emoldurar paredes para onde ninguém olha, guardar em gavetas que ninguém abre ou gravar em ficheiros que ninguém lê?
Quanto tempo duram o sucesso, a fama, os aplausos?
A todas estas perguntas já respondi em diferentes fases da minha vida dizendo a mim própria que caminhar e enfrentar desafios nos torna grandes como pessoas e valiosas. No meu caso, nunca me deixei vencer pela ambição do dinheiro, mas sucumbi a muitas outras destas humanas ambições de que, apesar de já me encontrar em fase madura da vida, ainda não me disciplinei a ignorar completamente. Mas já vivi o suficiente para aprender que é no desprendimento, na libertação dessas metas todas elas efémeras que se chega à grandiosidade que é cada um de nós.
Como o descobri?
A partir da fé que desde cedo me ensinou, como Jesus Cristo, ao desprendimento de nós e à entrega ao outro. Mas para eu colocar verdadeiramente em prática essa enorme lição de vida não me bastou conhecer e acreditar  que esta belíssima mensagem que foi toda a vida de Jesus Cristo conduz verdadeiramente à felicidade do ser humanos, mas não apenas na ressurreição, para quem nela acredita, já aqui, em cada dia que aprendemos a viver no caminho da humildade e da simplicidade. Com Jesus Cristo e os ensinamentos bíblicos aprendi o profundo desprendimento dos valores humanos e total entrega à espiritualidade e ao respeito do outro e entrega aos outros, sobretudo dos menos reconhecidos e até sobretudo dos marginalizados do seu tempo, mas precisei de caminhar por mim própria para aprender que este é o único caminho que nos traz verdadeiramente a felicidade, o outro traz abraços efémeros de reconhecimento, aplausos que se calam quando se ergue uma outra voz, olhares que se desviam para outros rostos, amizades que se afastam quando o nosso pedestal é mais pequeno, amores que caem quando chegam as rugas. São simples exemplos de tantos outros da minha e de outras vidas com quem todos contactamos, e diria, e também da sua vida, visitante virtual que não conheço, pois afinal, no fundo de nós, não somos assim tão diferentes uns dos outros, apenas os traços físicos nos dão diferentes fisionomias, mas as nossas almas, nos nossos anseios, os nossos medos e os nossos pequenos prazeres são comuns.
Pois bem, quanto tempo dura o sorriso fresco de uma criança?
Quanto tempo dura a sábia palavra na voz de um ancião?
Quanto temo dura o bater de asas de uma pomba?
Quanto tempo dura a cor de uma flor que nos encanta?
Quanto tempo dura uma música que nos extasia?
Quanto tempo dura a beleza de um quadro que nos fascina?
Quanto tempo dura a emoção que nos causa um poema?
Quanto tempo dura um gesto que nos comove?
Quanto tempo dura um abraço que nos conforta?
Quanto tempo dura uma atitude que nos enternece?
Quanto tempo dura uma oração que nos fortalece?
A resposta a todas essas questões é que, ao contrário do sucesso, dos aplausos, das medalhas, dos méritos e dos prémios, todas as outras coisas que evoquei duram o tempo quisermos, duram o tempo em que o nosso coração e a nossa alma quiserem que dure, pois estão todas lá para nós e a nossa felicidade será tanto maior quanto mais as virmos não apenas com os nossos olhos negros, castanhos, azuis ou verdes, mas com os olhos do espírito.
Eu gosto que essas coisas durem... que durem muito... que durem tempo que não me canso a contar, pois não importa, o que importa é que quando contacto com essas coisas sei e sinto que estou a contactar com a riqueza universal, com a intensidade de comunicação que me enriquece e valoriza se eu deixar. E eu deixo, e eu quero.
Caro visitante virtual, aceite este desafio, faça o esforço que eu prometo acompanhá-lo, não estará sozinho nesta caminhada, eu e tantos outros que conheço e desconheço procuramos o mesmo, descobrir o melhor de nós próprios em cada momento, auto-conhecermo-nos e reconstruirmos-nos após cada queda, Limpar o lixo que há dentro de cada um de nós e nos impede de caminhar e ver à nossa volta com verdadeira honestidade interior, reconhecendo o valor dos outros e do que nos rodeia.
Vamos lá, caminho consigo... boas passadas e até ao meu próximo post, caro visitante virtual. Como dizem os Moçambicanos "Estamos juntos", é assim que se despedem dos amigos, porque na verdade, de um bom e verdadeiro amigo nunca nos despedimos, estamos sempre com ele. É um espírito muito comum aos cristãos na sua relação com Deus, sentimos que estamos sempre com Deus e que Ele está sempre connosco.
Boa caminhada.
CC