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05/10/2014

Homenagem Póstuma a uma grande mulher de esperança: Lurdes Costa



Caros amigos virtuais,

Escrevo-vos hoje a propósito de uma grande mulher de esperança, Maria de Lurdes Costa, que me concedeu o privilégio de ser sua amiga durante mais de duas décadas. Partiu com a mesma força, determinação e esperança com que sempre viveu a vida.
Quando nos conhecemos, há mais de vinte anos, tornámos-nos amigas inseparáveis, apesar da grande distância de idade, de meios sociais e culturais de onde provínhamos e da diferença religiosa entre nós, a Maria de Lurdes convictamente ateia e eu convictamente católica.
Uniam-nos, apesar de tudo um conjunto de valores que faziam com que cada uma de nós tivesse um profundo respeito e consideração uma pela outra e eram esses valores que nos levavam a almoçar sempre juntas, a ter discussões interessantíssimas e a partilhar as nossas vidas. Os valores que nos uniam era que ambas tínhamos uma personalidade muito forte, valores porque regíamos a nossa vida e não nos desviávamos deles nunca nem que desviarmos-nos deles fosse mais cómodo, mais confortável ou mais valorizador aos olhos dos outros.
E, apesar de muito diferentes os nossos valores, ambas tínhamos em comum um profundo respeito pela vida, pelos outros, pela vivência com honestidade e coerência, custasse o que custasse. Eu assentava a minha esperança em Deus e acreditava no lado bom das pessoas que criava coisas positivas do ponto de vista social e coisas belíssimas do ponto de vista cultual. A Maria de Lurdes assentava a esperança dela no ser humano que devidamente educado devia contribuir para uma vivência social sadia e para a produção cultural de bens que nos faziam usufruir a beleza dessas produções literárias, musicais, arquitetónicas ou de produção de pintura. Ambas eramos apaixonadas pelos vários tipos de arte, pela ópera, pelo teatro, pelo cinema, pela literatura, pela pintura e pela beleza das magníficas paisagens quer de Portugal quer do mundo.
Dessa companhia constante, profissional e de grandes conversas durante o almoço nasceu uma profunda amizade que perdurou mesmo depois da aposentação da Maria de Lurdes, em que nos continuámos a encontrar regularmente, perdurou durante todas as fases da sua doença e perdura muito para além da sua partida em que foi coerente com o que sempre defendeu em vida. Planeou a sua partida com a simplicidade e honestidade com que sempre viveu a vida. Quis apenas que a acompanhassem nesse momento a família e aqueles que considerava verdadeiramente seus amigos. E eu permiti-me viver essa partida com a Fé que faz parte de mim e que ela sempre respeitou, embora a não partilhasse.
A forma como viveu a sua doença, um cancro, ela quereria que o dissesse assim abertamente e com todas as letras foi enfrentando-o com determinação e sem qualquer eufemismo. Nunca quis que nada lhe fosse escondido da sua doença e viveu muitos anos vencendo essa doença terrível enfrentando-a cara a cara até ao fim. Nunca a vi lamentar-se, desiludir-se ou ter vontade de desistir. A esperança que tinha em cada dia era forte porque achava que cada dia valia a pena se vivido com dignidade, usufruindo o prazer de estar com a família e os amigos.
Deu uma grande lição de perdão ao aceitar de volta alguém que a tinha traído, que ela abandonou por ser uma mulher consciente da sua dignidade e que voltou a aceitar e de quem cuidou por saber que a pessoa praticara os maus atos que praticara porque se encontrava doente. Perdoou, aceitou e cuidou prejudicando a sua própria saúde. Quanto me contou e eu lhe disse que era mais religiosa que muitos religiosos, e eu própria via nisso uma grande lição para mim que era católica, a Maria de Lurdes riu-se e disse-me que talvez não fossemos tão diferentes uma da outra como pensávamos teoricamente, porque eramos íntegras e coerentes com os nossos valores, humanidade e respeito pelos outros, dávamos era nomes diferentes a essa nossa identidade mais profunda. E eu concordei com ela porque me senti mais próxima dela na maneira de estar e de viver do que por vezes senti em relação a gente que comigo partilha a Fé Católica e eu própria muitas vezes na minha vida tive certamente limitações que fizeram de mim bem menos Católica do que a própria Maria de Lurdes sem se afirmar como tal, bem pelo contrário, assumindo sempre o seu ateísmo tão convicto quanto os seus valores democráticos e de republicana assumida.
Ocupou importantes lugares profissionais e abandonou-os quando entendia que os mesmos implicariam que fechasse os olhos a situações de desonestidade, não sem antes ter lutado contra essas situações, o que lhe acarretou a fama de ser uma mulher dura e de feitio difícil. No entanto, quem a conhecia bem sabia que ela era uma mulher forte e determinada que lutaria contra tudo o que não estivesse correto sem medo e sem vacilar, mas era também uma mulher de uma profunda sensibilidade humana, social e de respeito para com os valores dos outros ainda que fossem diferentes dos seus.
Quem conheceu a Maria de Lurdes nunca mais a esquecerá porque ela era uma força da natureza, uma excelente profissional e uma mulher íntegra, digna, cultíssima com um extraordinário sentido de humor e uma amiga incondicional de quem pretendia ser amiga.
Um dia perguntei-lhe se sendo ela ateia eu podia rezar por ela e a resposta que me deu surpreendeu-me. Disse-me que claro que sim, nem ela esperava de mim outra cisa, pois sendo eu católica convicta sentiria essa necessidade e acreditaria verdadeiramente na oração, pelo que ela até me agradecia que rezasse por ela, pois embora ela não acreditasse eu acreditava e a ideia de eu rezar por ela deixava-a confortável.
Para mim a Maria de Lurdes não partiu, e a sua identidade não foi reduzida a cinzas, apenas o seu corpo, porque a magnitude de mulher e amiga que foi permanece bem vida dentro de mim e estou certa, dentro de todos quantos a conheceram, admiraram, valorizaram, amaram, estimaram. Deixou-nos uma profunda lição de esperança, de que vale a pena viver só para estar perto dos que amamos e beneficiar do prazer da sua companhia e darmos-lhes aquilo que somos.
Minha querida amiga, Maria de Lurdes, estou a escrever este post e acredito que um dia nos encontraremos na eternidade porque me autorizou a que tivesse essa crença em relação a si, embora a Maria de Lurdes a não tivesse. Até ao nosso encontro final, entretanto vamos-nos encontrando em cada dia em que me lembro de tantos momentos de partilhados e que tanto valor têm para mim.
Por tudo isto, caros amigos virtuais, não qui deixar de partilhar convosco esta minha valiosíssima amizade e a sua força para lutar e alegria de viver, mesmo nos momentos mais difíceis.
 
Um abraço virtual,
 
C.C.