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Menino do Caniço (Conto)



menino do caniço

(Conto da autoria de Célia Chamiça publicado na Revista “Aprender Juntos”, nº 6-7, Ano IV, da Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa, Janeiro de 2006 (Págs. 195-199)

 (Em homenagem à Escola Portuguesa de Moçambique, seus responsáveis e professores, construtores do futuro de milhares de crianças de tantas nacionalidades naquele país.)

-I-

Menino do Caniço, cor de canela e sorriso rasgado escondendo a fome na barriga saliente. Chamava-se Sumail, mas poderia ser Francisco, Arsinoe ou João e a terra batida suportava as casas do Caniço onde dormia. Esteira estendida no solo e uma fogueira a aquecer as noites africanas, quando a sorte permitia recolha de lenha para queimar.
Sumail tinha dez anos, frequentava a Escola do Polana Caniço, nos arredores de Maputo, gostava de aprender muita coisa e corria livre entre bananeiras e desperdícios infectos. A sua perdição era jogar à bola em torneios aguerridos com a vizinhança e a vasta planície acolhia os desafios como se fosse uma grande mãe.
A bola pequena, branca mas avermelhada pela terra, servia de instrumento para a algazarra da criançada que disputava os jogos com um ânimo que se diria ser ele próprio a magia que fazia elevar uma bola tão esventrada como a que se erguia no ar.
- A nossa equipa é a melhor daqui à volta. Dizia o petiz orgulhoso, acentuando com o braço a distância imensa da planície que fazia adivinhar inúmeros bairros junto aos caniços, bananeiras e coqueiros.
Iara tinha cinco anos e uns olhos doces que nos prendem a alma ao seu rosto feliz de criança sem nada. Sorria... imensamente, num sorriso rasgado que nos inundava o ser. Não sabia falar Português, só repetia o que se lhe dizia como se fosse um eco encantado.
Irina, com sete anos, repelia a ideia de casar cedo como a irmã, que com treze anos esperava ser mãe. Dizia que mulher inchada só vomita. Já viu muito disso! Não percebe para que come o pouco que há para todos, porque depois vomita.
Sumail olhava trocista aquele corpo impúbere, temendo já projectos de maternidade. Sabia que ela pouco poderia fazer para escapar ao seu destino de menina do Caniço. Nem as finíssimas tranças negras, nem a sua pele macia, nem o seu coração de gazela, nem a sua inteligência aguçada lhe dariam asas para a transportar a um futuro mais radioso.
-Irina! Chama a mãe numa voz que não admite réplica. Envolta numa capulana de tons vivos que fazem sobressair a sua beleza de moçambicana, a mãe de Irina estende dois enormes recipientes de plástico para que a filha abasteça de água a família.
Irina, entusiasmada com a conversa, ainda tentou ignorar a chamada, mas ao ver a mãe aproximar-se com ar ameaçador, foi ao encontro dela. Munida dos vasilhames de cor desbotada pelo uso e pelo sol, a pequena apressou o passo para se juntar ao grupo de raparigas que se dirigiam à bica de água mais próxima.
A pele perfeita daqueles rostos jovens irradiava uma luminosidade mágica, os lábios vermelhos e carnudos sobressaíam num contraste único com o rosto cor de caramelo enfeitado com expressivos olhos arredondados e negros. Riam e cochichavam entre si paixonetas e segredos que Irina desprezava, enfastiada. Quem lhe dera continuar ali na conversa com os estranhos!

-II-

Irina acordara sobressaltada com as fortes bátegas de água que escorriam sobre a cabana, penetrando no entrelaçado e enlameando o chão. Chovia cada vez menos; a seca estendia os seus braços asfixiantes sobre as terras do interior de Moçambique, mas mesmo nas zonas litorais havia cada vez menos chuva. Ainda assim, não lhe apetecia levantar, pelo que, estendeu a custo o corpo pesado, procurando dar-lhe um conforto que nem a esteira, nem a avançada gravidez lhe permitiam.
A rapariga tinha agora vinte anos e estava à beira de dar à luz o seu terceiro filho. O medo de o parir era tanto que quase ganhava vida autónoma, sob a forma de um gigante que parecia asfixiar-lhe a garganta, tal era a dificuldade que sentia em respirar. Dois partos e alguns abortos já avançados dançavam na memória de Irina, enevoando-lhe os olhos de lágrimas, raiva e dor. Dois partos e nenhum filho sobrevivente!
E agora, como seria? A criança que tinha dentro de si não parava de estrebuchar dentro do seu ventre bojudo... teria fome como as outras? Teria forças para respirar cá fora pelos seus próprios pulmões? Ou já viria condenada pelo SIDA ou outra qualquer doença terrível? Irina contorcia-se entre dores e angústias, e as mulheres que a rodeavam entreolhavam-se, trocando nos seus olhares cumplicidades inconfessáveis... os medos, os abortos, os filhos abandonados, os filhos criados, os filhos perdidos, os filhos amados.
O que mais revoltava a jovem parturiente, nem eram os filhos perdidos, era a sua própria juventude morta ainda antes de ser vivida e o que ela mais temia, não era perder mais aquele filho, era ganhá-lo. Que faria ela com ele? Sem dúvida, o mesmo que todas as outras raparigas e mulheres do Caniço, condená-lo à pobreza. Ah! Quem lhe dera ser homem e não emprenhar, poder partir dali, tendo como única bagagem os sonhos de menina e como força do trabalho mais do que os seus braços... um qualquer saber!

-III-

Lá fora um carro travou a fundo, atulhando as rodas de lama, e dele saiu Sumail, nas suas vestes ocidentais de bom corte. O menino do Caniço tinha agora trinta e três anos e havia muito tempo que não regressava ao sítio onde nascera e vivera a sua infância, mas avisado do crítico estado de saúde de Mãe Joana, partira sem demora a visitá-la.
Mãe Joana olhou o seu menino com uns olhos doces e saudosos:
-Sumail, meu filho, que eu julgava de não ver mais!
Orgulhosa, Mãe Joana percorria com o olhar o corpo robusto e bem vestido do filho de leite. O rosto do rapaz, de linhas nítidas e olhar decidido, cativava quem o olhava. Quem diria que o seu leite alimentara um disputado advogado das elites da África do Sul!
Sumail pegou-lhe na mão esquelética e levou-a aos lábios com ternura. Era a sua mãe de leite, a única que sempre conhecera, aquela que o acolhera e amamentara quando a sua mãe natural falecera durante o parto, demasiado violento para que o seu jovem e frágil corpo o pudesse suportar.
Mãe Joana nem saberia dizer quantos filhos teve ao longo da sua vida, mas procurou captá-los todos para um adeus que não ouviriam, mas que ficaria guardado no seu peito em asfixia. Nesse adeus, estavam os filhos que pariu e os que amamentou, os que foram morrendo e os que, sobrevivendo, foram partindo para longe dela, o seu pensamento não se apagaria enquanto os não captasse a todos no calor do seu abraço eterno.
Mãe sempre soubera que, de entre os seus filhos, de sangue e de leite, Sumail tinha algo de especial. O olhar vivo do rapaz e a sua capacidade de entender o que ainda não tinha sido dito mostrava que os espíritos estavam com ele e haviam de o levar longe. A confirmação do seu pressentimento chegou através do Director da Escola do Polana Caniço, um homem velho e sábio, de pele enrugada e olhar sereno, que a procurou para falar do menino numa manhã em que, como tantas outras, o sol parecia um braseiro imenso, fazendo com que a terra ressequida se cansasse de o receber e, por isso, devolvesse o calor num reflexo natural intenso.
Para a vida de Sumail, aquela manhã foi um momento mágico, transformador do seu destino, mostrando que a vida é um caleidoscópio de magias com secretas felicidades a despontar onde e quando menos se espera.
Perspicaz como era, bastou ao garoto ver o velho mestre sentado na cabana, bebendo uma Laurentina com Mãe Joana, para perceber que ali havia novidade e o assunto era ele, a prova estava nos olhares vigilantes que o Director lhe vinha dirigindo nos últimos meses.
Logo nessa manhã ficou acertado tudo com Mãe, uma família de portugueses, bem sucedidos na vida e residentes em Maputo, havia decidido apoiar os estudos de uma promissora criança da Escola do Polana Caniço, com uma condição: a criança viria viver com eles para que pudessem acompanhar passo a passo a sua evolução, passaria a estudar na Escola Portuguesa de Moçambique, ali mesmo na capital e depois, se fosse bem sucedida, faria uma licenciatura em Lisboa, que pagariam com muito agrado. Mãe Joana esboçara uma afirmação comovida e o Director não precisou de mais nada, o pacto estava selado entre eles e o destino de Sumail lançado a uma ventura que não se sonhara possível no Caniço.
Agora, ali junto de Mãe Joana, estendida no seu leito de transição, Sumail sentiu a mão dela estremecer ao contacto do seu beijo e pareceu-lhe que uma parte da velha mulher começava já a partir para além do horizonte conhecido.
Olhando-a, lembrou com ternura o seu primeiro dia de aulas na Escola Portuguesa de Moçambique, encontrar-se naquela escola magnífica e vestido com a farda azul e branca, fazia-o sentir-se cheio de força e magia. Tinha nos pés os ténis confortáveis e a mochila recheada de bom material escolar, objectos de tal modo especiais para si que lhe parecia quase um sacrilégio serem tocados. A Directora da Escola com ar maternal e caloroso dava as boas vindas aos alunos no pátio cercado de arbustos e trepadeiras de cores viçosas. Os pavões magnificamente coloridos e de longas penas sedosas disputavam com os garotos animados o pátio do bonito edifício amarelo-torrado.
Fora do gradeamento da escola, do outro lado da estrada, como que clandestinamente, Mãe Joana observava o seu filho de leite num local onde nunca imaginara nenhum dos seus, equilibrando na cabeça o molho de lenha que viera apanhar para fazer o magro almoço, constituído naquele dia por inhame e três ovos para toda a família.
Era curioso observar Sumail ali na Escola, assim fardado e equipado, parecia igual a todos os outros, ninguém diria que vinha do Caniço, mas vinha, e era o seu filho mágico, aquele capaz de mostrar a todos os meninos e meninas do Caniço que o destino nos pode reservar boas surpresas se o sonho nos conduzir mais além.

-IV-

As vestes melhoradas conferiam solenidade aos funerais. O pó vermelho colava-se às roupas dando-lhes um toque de terra, como que a lembrar aos presentes no cortejo que mortos e vivos a ela pertencem sem distinção.
Naquele fim de tarde, quando o céu se tingia abruptamente de laranja sobre a baía azul do Maputo, elevavam-se à eternidade duas mulheres que, embora com idades tão distantes, haviam tido caminhos tão iguais, os da vida de meninas e mulheres do Caniço. Irina, levada na força de uma contracção que lhe arrancara do peito o último suspiro da vida que mal chegara a viver e Mãe Joana, que partia de forma suave, como se o ar fosse saindo devagarinho do seu peito frágil para não a acordar do sonho doce em que se encontrava, rodeada do calor da presença dos seus filhos todos juntos como nunca haviam estado.
Sumail sentado na areia da praia chorava Mãe Joana como só um filho sabe chorar uma mãe. Havia feito questão de se despedir dela ali, junto do Índico, onde as cores vivas do horizonte lembravam os panos com que Mãe o envolvia à cintura, de pés suspensos, enquanto procurava lenha ou trabalhava na machamba. Mas sobretudo, aquela imensidão de água fazia-o acreditar que Mãe Joana nunca mais teria sede porque estaria para sempre na fonte da vida, onde se fundira na eternidade de todo o universo.
Célia Chamiça
1994