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A Aguadeira (Conto)

 
 
a aguadeira
Autora: Célia Chamiça
Prémio na Categoria: Histórias inventadas no concurso “Histórias do Trabalho/2014”, Porto Alegre, Brasil
(Neste caso sobre uma mulher que vendia água de porta em porta em Lisboa, quando ainda na Lisboa antiga não havia água canalizada nas casas)
 
 
Publicado na colectânea “Histórias do Trabalho/2014”, “ A Aguadeira”, pág. 71 a 75, em resultado de premiação para publicação nesta Antologia em resultado de concurso literário promovido pela Secretaria da Cultura da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, Brasil, Editora da Cidade, 2014
 
Lisboa refrescava com a presença cor de prata e de luar da aguadeira. Esta trazia cântaros rubros como os seus lábios e a sua voz era melodiosa como os regatos pulando seixos. Leonor tinha uma idade fixa no tempo, parecia que este fora seduzido pela sua beleza singela ao ponto de se ter esquecido de passar pela aguadeira, deixando apenas nas outras mulheres sinais pouco lisonjeiros.
— É água fresca. Água pura da nascente.  — Apregoava a rapariga, fazendo soar a sua voz vibrante.
Enquanto vendia o precioso líquido, os transeuntes miravam-lhe as formas arredondadas como ondas do mar. Dir-se-ia que toda a sua natureza era fresca e aquática, numa simbiose perfeita com o precioso líquido que comercializava.
— Leonor, um dia destes caso contigo. — Dizia-lhe João, um jardineiro que há meses procurava seduzi-la.
  Nem tu, nem homem nenhum. —  Respondia ela na sua voz determinada. —  Em mim homem nenhum há-de mandar.
  Não digas isso, que te deixaria seres tu a mandar. Serias a minha patroa, faria tudo o que quisesses.
— É o que todos dizem antes de apanhar a mulher em casa, depois não faltam histórias de infelizes por aí que se deixaram levar nessa conversa e agora, arrependidas, não podem sair do inferno para onde foram pelo seu próprio pé.
  Não sejas assim, Leonor. Essas palavras duras não assentam numa cara bonita como a tua. Tu tens cara de sonho e não de pesadelo. Isso acontece a mulheres feias, não a mulheres por quem um homem dá tudo para as ter ao seu lado.
  Na sua cama, queres tu dizer. E é até se fartar ou encontrar outra que lhe pareça mais jeitosa.
  Não sejas cruel, Leonor. Tão nova e já com tanto veneno no sangue!
  Não sabes a minha idade.
  Nem me interessa. É o aspecto que faz a mulher e não a idade.
  E quando o tempo faz mudar o aspecto da mulher, deita-se fora, como a um trapo velho?
  O tempo pode mudar uma mulher ainda para melhor. —  Cochichou-lhe maliciosa e sensualmente ao ouvido.
Leonor tremeu por dentro. A carícia suave e insinuante vinda de quem a perturbava mais do que gostaria de admitir deixou-a perturbada. Com as costas das mãos limpou a testa onde se acumulavam pequenas pérolas de suor.
João, percebendo que a perturbara, sorriu e nada mais disse. Haveria que dar tempo ao tempo, com persistência Leonor seria sua, mas qualquer gesto precipitado poderia estragar tudo. Ele conhecia bem a natureza das mulheres.
A rapariga terminou a venda da água mais tarde nesse dia, parecia-lhe que tudo se arrastava mais do que o habitual. Seria talvez o calor que arrastava a duração dos gestos. Quando chegou a casa sentia-se cansada. Atirou-se para cima do leito coberto com uma manta colorida que a avó tecera no tear e adormeceu.
Por mais que tentasse, João não esquecia a bela aguadeira, embora soubesse que ela nunca aceitara nenhum namorado antes nem pretendia casar. Havia ali um passado que certamente explicava isso e poderia até ter causado uma mulher frígida, mas desejava-a cada vez mais descontroladamente. A aparente indiferença dela, temperada com alguns deslizes de sensibilidade à sua presença, ateava ainda mais o fogo, já de si abrasador. Não saberia mesmo dizer se era uma paixão ou uma obsessão, o que o consumia por dentro.
Os outros homens foram-se afastando das suas intenções em relação à bela aguadeira à medida que foram percebendo que teriam que enfrentar o forte e ágil rival, caso viessem a ter sucesso na sua conquista, o que não havia qualquer indício de suceder.
João, orgulhoso, compreendia que o seu poder de influência era suficientemente forte para afastar quaisquer intenções de outros em relação à apetecível Leonor. No entanto, sentia cada vez mais que os dias iam correndo como a água nas fontes que abasteciam Leonor e começou a desesperar por não ver qualquer progresso nas suas pacientes abordagens amorosas.
Naquele fim-de-tarde, como habitualmente, Leonor repousou na manta estendida sobre o seu leito, o corpo cansado do percurso pelas ruas abastecendo de água os cântaros das casas da cidade. Tinha talvez já adormecido quando se apercebeu que alguém batia à porta com insistência. Levantou o corpo, contrariado pelo descanso interrompido, e foi abrir.
Nem tinha tido ainda tempo de se surpreender com a visita, já ela irrompia porta dentro. João, com ar transfigurado, tomou-a nos braços e conduziu-a por um percurso de intimidades que ela não lhe havia oferecido. Quando, por fim, tombaram ambos física e psiquicamente consumidos um pelo outro, ele olhou-a com uma ternura que ela nunca antes vira em nenhum olhar e disse:
  Casa comigo.
  Não acabei de casar?    A voz dela era fria e cortante como a água gelada das montanhas no Inverno.
  Sabes bem a que me refiro Quero que sejas minha para sempre.
  E se eu não tiver sido tua nunca?
  Não foste?
  Não o saberás. Nada mais saberás sobre mim, a não ser que era aguadeira, percorria os pátios com avental de chita e tinha no olhar sonhos de liberdade que não respeitaste.
João chorou como uma criança perdida. Naquelas lágrimas misturava-se culpa, amor, paixão, desespero e desilusão. Sabia que já nada do que fizesse ou dissesse a faria voltar atrás, no entanto, a medo, ainda disse inquiridor:
  Eras aguadeira? Por favor, não cometas nenhum disparate. Fui só eu quem errou.
  Claro que foste tu que erraste. Cometer um disparate, eu? Por causa de um homem? Isso seria dar-lhe o poder de determinar o meu destino, o que nunca acontecerá. Vai-te embora que não foste sequer convidado a entrar.
O rapaz saiu cabisbaixo e toda a sua corpulência parecia ter definhado no breve tempo que ali passara.
No dia seguinte, percorreu as ruas com esperança de vislumbrar Leonor algures pelas ruas e tentar captar-lhe no olhar orgulhoso alguma saudade dos seus braços meigos. Ele sabia que não a magoara e tinha a certeza que ela se consumira com ele num prazer que se recusava a admitir. Inesperado para ela, é certo, mas ele sentira que o corpo dela respondera intensamente a um desejo que ela negava reconhecer.
Não a encontrou nesse dia, nem nos seguintes. A aguadeira partira dali sem deixar vestígios pois não queria ser surpreendida novamente pela devassa da sua intimidade negada.
Foi instalar-se junto de umas primas nos arredores de Lisboa, em Caneças, e conseguiu empregar-se como lavadeira um mês após o parto.
No rio, lavando roupas alheias, as outras raparigas interpelavam-na curiosas e desafiadoras:
  Quanto tempo queres ficar nesta labuta? Isto não é lugar para ti. És nova e bonita, podes arranjar um bom partido que te dê uma vida de senhora sem estes suadouros.
  Foi por não querer arranjar homem nenhum que acabei arranjando um. — Respondeu —  Mas este, confesso que não me arrependo nada de o ter arranjado. —  Disse, fazendo uma breve pausa para se dirigir a uma sombra próxima e ajeitar o seio farto aos lábios sedosos do pequeno rebento.
  Nem sei como vives sem homem. —  Diziam com ar matreiro as outras lavadeiras, de saias arregaçadas, junto às pedras do rio, mergulhando na água límpida esperanças de futuros sorridentes e generosos.
  Eu nem sei como vocês conseguem aturar um homem e deixá-lo decidir tudo das vossas vidas.
  Isso pensas tu! Quem te diz que são eles que mandam? Eles gabam-se disso para não serem zombados uns pelos outros, mas quem manda somos nós. —  Diziam enérgicas, batendo a roupa com a mesma violência com que à noite se entregavam aos mistérios da sua sensualidade sadia.
  Pois sim. —  Respondeu Leonor, levantando-se para ir colocar a corar sobre a relva lençóis, uns escondendo histórias de quentes noites de paixão e outros de longos períodos de solidão.
  Se te aparecer aí um que te agarre a jeito, vais ver que o não negas. És de carne e osso como todas nós. E o teu sangue também ferve se a paixão o consome.
  A única paixão que tive na vida foi pelo pai do meu filho e não me consumiu.
  Então, se abandonaste o único homem que amaste, ainda és mais tonta do que nós pensávamos.
Leonor encolheu os ombros e continuou a lavar, senhora do seu destino e do do seu filho. Tudo o resto escorria e se evaporava, como a água que sempre marcara a sua vida, só não escorria a saudade da sua Lisboa e das belas calçadas que já não percorria alegrando-as com a sua voz de pregoeira alfacinha.