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A louca (Conto)


A louca


Nota da Autora, Célia Chamiça:
O presente conto, em 2008, foi agraciado com o 3º Prémio Irene Lisboa, promovido pela Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos, encontrando-se para publicação pela referida Autarquia.



DEDICATÓRIA:

À memória de minha mãe, Maria Eugénia, que é a mulher mais admirável e com a maior capacidade de amor que alguma vez conheci em toda a minha vida.


Não se lhe conhecia nome, nem idade, aparecia e desaparecia por temporadas tão irregulares como o seu próprio pensamento. No entanto, era nos refúgios verdes da Quinta do Marinheiro que surgiam sinais da presença daquela louca com cabelo cor de fogo: objectos que estimava e de que não se queria separar, objectos que a prendiam a um passado que constituía o seu presente e também o seu futuro.
André Santiago, que se encontrava a escrever uma tese de doutoramento sobre Egas Moniz O investigador português premiado com o Nobel da Medicina, costumava dirigir-se aos jardins da Quinta para escrever. Era um ritual que cumpria diariamente com a certeza de ali se encontrar no local ideal para laborar os seus pensamentos, em torno da informação recolhida na Casa-Museu, como se de um laboratório se tratasse. O médico humanista e investigador teria gostado de saber que o seu espírito ficara plasmado na sua antiga casa, que em testamento legara para usufruto de todos os seus visitantes.
Foi precisamente este jovem doutorando que numa das suas habituais tardes, esta de falta de inspiração, se apercebeu de algo preso a um arbusto que lhe cativou a atenção, fácil de despertar para algo que não a sua folha em branco.
Tratava-se de um chapéu e tal forma puído, que se tornava impossível dizer que cor teria tido. O rapaz sorriu com ar irónico perante tão inusitado objecto. Não fazia sequer ideia de alguém que usasse tão ridículo chapéu. O desprezo pela condição em que o objecto se encontrava superou a curiosidade de o procurar identificar, pelo que se limitou a observá-lo e a sugerir que aquele lixo fosse removido do jardim.
— Nem pensar. — Respondeu-lhe, peremptório, o jardineiro da Quinta, a quem se dirigira para solicitar a remoção do dito objecto.
— Então, o senhor Joaquim tenciona deixar aquele chapéu gasto e sujo a decorar os arbustos de um jardim de que se ocupa com tanto cuidado?
— Esse chapéu pertence a alguém que o virá buscar mais tarde.
Enigmático, o velho jardineiro não disse nem mais uma palavra sobre o assunto, por mais que o rapaz insistisse em questioná-lo.
Os dias iam correndo longos e quentes para André, que os sentia cada vez mais enfadonhos, numa vila onde começava a sentir-se enclausurado. À medida que cresciam as saudades da cidade e do seu bulício, diminuía a inicial visão romântica do bucólico da Quinta.
Entre dias de maior inspiração e outros de vazio de ideias, o jovem habituou-se de tal modo à presença do chapéu abandonado num dos refúgios da Quinta, que quase já lhe parecia que este fazia parte da natureza que o envolvia.
Não teria voltado a pensar no assunto não fora ter desaparecido o dito chapéu e, no seu lugar, ter surgido um não menos intrigante avental de riscas largas e cor indeterminada.
Ao avistar, entre duas sebes, o cabelo branco do senhor Joaquim aparando com toda a arte os galhos verdes, não resistiu e galhofou:
— Então, senhor Joaquim, o avental também é para ficar?
— Pois sim, vá gozando, enquanto tem idade e saúde para isso.
Sem compreender o que tinha esta observação a ver com a sua questão, continuou tentando aperceber-se do que se passaria ali:
— O senhor também não se pode queixar, não está nada mal conservado e a sua cabeça é até mais fresca do que a minha.
— Não faça tantas noitadas metido no café e nos copos e verá que a sua cabeça lhe agradece.
— Que sabe o senhor das minhas noites?
— O que toda a vila sabe, que veio cá desinquietar as nossas pequenas. Não lhe chegam as da cidade? Olhe que temos cá muito boas raparigas. Não brinque com os sentimentos delas que também não gostaria que brincassem com os seus.
— Não me diga que pensa isso, senhor Joaquim? Eu nem arranjei cá namorada. E, se arranjasse, era entre mim e ela o assunto, ninguém mais tinha nada a ver com isso.
— Ora meu rapaz, não me tome a mal. Eu sei o que é sangue novo. Ainda tem muito para viver e para aprender.
E, apontando com a tesoura de podar para a folha em branco, continuou:
— Escreva e estude que é o que sabe fazer bem. Deixe os jardins cá à minha guarda, que cuido deles desde tempos em que você ainda nem estava na barriga da sua mãe.
André Santiago sentiu as faces afogueadas por um misto de vergonha e raiva. Quem pensava aquele velho que era? Decidiu não lhe dar mais conversa, visse o que visse na Quinta.
Desde esse diálogo pouco agradável, o jovem vinha instalar-se a escrever e limitava-se a lançar um seco cumprimento ao jardineiro se acontecia que ele passasse por onde se encontrava.
Ficara com uma péssima impressão do homem. Parecera-lhe arrogante e bruto. Falou mesmo desse facto com uns amigos com quem partilhava o serão numa das esplanadas da vila.
— O Ti Joaquim da Quinta, malcriado contigo? Só se lhe fizeste alguma! O homem é um puro-sangue no melhor sentido da palavra, recto e firme como poucos há. Diz-se que respeitava até o louco que cravejou de balas o Prof. Egas Moniz. Nunca ninguém lhe ouviu uma palavra incorrecta e olha que muita gente visita a Casa-Museu por causa do magnífico espólio artístico e científico. Pelo contrário, tem sido sempre louvado pela sua arte de podar e pelo seu trato educado para com todos.
André, despeitado, resolveu não prosseguir o relato. Ia falar-lhes dos estranhos e sujos objectos deixados nos jardins da Quinta, mas decidiu terminar a conversa por ali. Certamente não iriam acreditar nele e pensariam que estava a querer arranjar problemas ao jardineiro por ter embirrado com ele.
“O Prof. Doutor António Caetano de Abreu Freire (Egas Moniz) recebeu o Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia, em 27 de Dezembro de 1949, graças à sua inexcedível investigação científica no campo das doenças mentais e da forma como as estudar e tratar.”
Tinha acabado de redigir estas linhas quando se apercebeu de um vulto esquelético e andrajoso atrás de si. Pressentiu a chegada mais pelo cheiro que pelo ruído que mal se recordava de ter captado.
De cabelos cor do sol-pôr, emaranhados e afagados com carinho por uns dedos longos, sob o chapéu que bem conhecia, estava então à sua frente a suposta proprietária do mesmo.
André, suspenso dos movimentos suaves da misteriosa figura que parecia nem dar pela sua presença, não conseguia desprender dela o olhar como se um magnetismo especial irradiasse daquela frágil mulher.
Esta, quando terminou de ajeitar o chapéu, retirou um xaile que trazia pelas costas e deixou-o no mesmo arbusto de sempre.
Enquanto pousava aquele acessório, dispensável com tanto calor e esgarçado pelo tempo, ia cantando baixinho uma ladainha incompreensível que soava a canção de embalar, parecendo acariciar uma memória guardada algures num canto do seu pensamento à deriva. Quando terminou, foi embora, deixando atrás de si a dúvida sobre o seu próprio aparecimento.
O jovem estudioso temeu estar a ter ilusões pouco saudáveis e, desta vez, sentiu que tinha de tocar o sujo objecto para se certificar de que este era real e não produto da sua imaginação.
Cada vez mais solitário e embrenhado nos seus pensamentos, André decidiu abandonar tudo. Estava farto daquela tese que não tinha fim e sentia-se perdido ao confrontar a sua vida e os seus valores pessoais com os do grandioso homem que estudava. Sentia-se em questão e isso incomodava-o, por isso, decidiu regressar a Lisboa, à sua cidade e aos lugares que lhe eram familiares e não o atraiçoavam com segredos interditos e figuras estranhas.
Porém, por mais que procurasse afastar do seu pensamento a figura do Professor Egas Moniz, esta pairava sobre si como uma sombra, condenando-o a terminar o estudo iniciado.
— Parece bruxedo, coisas de espíritos, como se o médico, no além, me obrigasse a terminar esta tese maldita. — Desabafava no regaço confortável de uma companheira da noite que não o escutava.
— Quererá ele fazer alguma revelação estranha através de mim? Científica ou outra, que ele era uma personalidade extraordinária. Serei eu um simples instrumento de um plano sobrenatural? — Arrepiou-se com esta ideia perturbadora que lhe invadia o cérebro já saturado pelo álcool.
A intranquilidade precipitou-o num consumo crescente que levou a um estado de quase inconsciência onde se sentia a pairar sobre as dúvidas e questões que o incomodavam.
Quando acordou, na manhã seguinte, tinha a cabeça pesada como chumbo e foi com enorme dificuldade que ouviu do seu orientador científico um ultimato inquestionável. Saiu da Universidade sentindo que o seu corpo caminhava por fracções separadas que insistiam em não se ajustar umas às outras.
De regresso a casa, as admoestações da mãe, que lhe telefonara insistentemente até o apanhar, sobrecarregaram ainda mais o seu dia.
Farto de tanta pressão e sem percurso alternativo imediato para a sua vida, decidiu regressar a Avanca para terminar rapidamente a tese e ir para o estrangeiro. Queria fugir da família, dos supostos amigos, da Universidade, de todos... parecia-lhe que em Portugal se asfixiava.
Assim que, em Avanca, desceu do comboio foi interpelado:
— De volta à nossa vila?
Quis perceber quem lhe falava, mas não era fácil.
— Tão pouco tempo fora e já não me conheces?
O esbater do ruído de fundo permitiu-lhe reconhecer a voz do jardineiro. Este parecia uma figura de um museu de arte popular, como se fosse um camponês a trajar a roupa nova dos tradicionais festejos anuais. Estranhou vê-lo assim e perguntou:
— Também foi viajar, senhor Joaquim?
— Espero uma visita.
— Deve ser alguém importante, para se aprumar dessa maneira.
— Uma velha amiga.
André conseguiu reter um esgar de riso a tempo de não ofender o homem.
O velho Joaquim tinha uma paixão secreta. Quem diria? E a dar-lhe a ele sermões em relação às raparigas de Avanca! Não se conteve e disse intrigado como quem estranha aquela espera despropositada de um passageiro retardado:
— O último comboio já chegou.
— Obrigado, cá a espero.
— Já não vem mais nenhum comboio hoje. — Reforçou.
— Eu sei. Boa noite.
André, uma vez mais, não compreendeu o velho, mas não iria incomodar-se mais com as suas palavras pouco claras.
O antigo apeadeiro, àquelas horas quase deserto, parecia situar-se num mundo fora do tempo.
André tinha já dado alguns passos em direcção ao café que ficava ali próximo quando sentiu alguém embater contra ele. Deu um salto, mais pela surpresa da situação que pela força do embate, porque ao caminhar ia olhando para o café para se certificar se não fechara ainda, pelo que não se deu conta da figura feminina que avançava decidida em linha recta como se de nada tivesse que se desviar.
Reconheceu-a pelos andrajos e pelo cabelo, onde se equilibrava o habitual chapéu. Ainda protestou, aborrecido, mas logo desistiu, pois viu-a continuar no seu passo de sonâmbula, em direcção ao apeadeiro feérico.
Tinha já retomado a marcha, mas a sua curiosidade foi mais forte e fê-lo voltar-se. Não é que o velho jardineiro se aperaltara para ir ao apeadeiro esperar a louca andrajosa que não descera de nenhum comboio, mas sim da vila?
Chegou ao café já as portas estavam fechadas, mas a simpatia de uma vila ensina muito ao profissionalismo da cidade.
O senhor António, ao avistá-lo, voltou a destrancar os ferrolhos, serviu-lhe um café quente e disse, logo de pronto, que o levaria à pensão da D. Julieta.
— Ela espera-o, não é verdade?
— Espera, sim. Telefonei-lhe de Lisboa para reservar o quarto e avisar que vinha hoje no comboio da noite.
— Vamos lá então, que se faz tarde, e amanhã também é dia.
— Encontrei há pouco o senhor Joaquim no apeadeiro. Ele não precisará de boleia?
António sorriu e disse:
— Não se preocupe com ele. Não vai voltar tão cedo.
— Vi uma louca dirigir-se para ali. — Disse, apontando para o apeadeiro.
— É natural, hoje é dia 1 de Julho.
— Aqui em Avanca dão viagens de comboio grátis aos loucos nesse dia? — Gracejou com descarada ironia.
— Não, aqui em Avanca morreu o filho de uma mulher num acidente ferroviário no dia 1 de Julho, há uns anos atrás. Desde então, ela enlouqueceu e, todos os anos, no mesmo dia, o senhor Joaquim passa a noite de vigília com ela a relembrar as histórias da criança que nunca cresceu, a não ser no pensamento mirífico da mãe e que ele viu com vida apenas durante uns derradeiros segundos que nunca mais esqueceu.
— Desculpe. — Disse André, atrapalhado com a surpresa e sensibilidade da questão.
— És muito novo, meu rapaz, tens ainda muito que aprender.
— Foi o que me disse em tempos o senhor Joaquim. Aqui são todos muito misteriosos — Disse, lembrando-se dos objectos encontrados nos refúgios da Quinta do Marinheiro.
— Todos os locais têm os seus mistérios e as suas gentes, os seus segredos. Não ensinam isso na escola?
— Ensinam. — Disse André, pela primeira vez com sentida modéstia. Mas a vida é a melhor mestra de todas, já os antigos o diziam.
— Parece que estás a compreender melhor, meu rapaz. Começas a ter peito feito para a vida. Chegaste aqui como um galo de capoeira, emproado com o teu saber e a importância dos teus estudos e da tua vida de cidade e, sem saberes, não passavas de um franganote arrogante. Agora começas a tornar-te um homem lúcido.
André sorriu e disse:
— É, senhor António, às vezes as ideias, se são muitas e andam baralhadas e mal arrumadas, entopem-nos o pensamento e tornam-nos estúpidos.
— Mas se entopem, faz-se-lhes como aos ouvidos, sacodem-se para desentupir. Todos precisamos de uma boa sacudidela às vezes.
— Então não precisamos? — Concordou ele, sentindo o privilégio de partilhar a experiência e sabedoria do disponível habitante de Avanca. Prosseguindo, disse, respeitoso:
— Senhor António, se não vir inconveniente, acha que me pode contar o que tem o senhor Joaquim a ver com a história da louca? O filho era de ambos?
— Vês como já falas de outro modo, meu rapaz? Assim até dá gosto falar contigo, cara a cara e pensamento limpo. Não andamos cá para fazermos chacota uns dos outros. Agora sim, com esses modos posso contar-te a história deles porque mostras respeito e por isso mereces conhecê-la. O respeito é uma coisa muito bonita.
— A minha avó também dizia isso, mas pelos vistos eu tinha-me esquecido das palavras dela.
— Não esquecerás mais. Agora aprendeste-as com a tua própria experiência e, por isso, é como se te ficassem gravadas na pele, como uma marca. Vamos então à história: Não, o filho não era de ambos. O Ti Joaquim nem sequer os conhecia, nem à mãe nem ao filho. Ele é apenas a pessoa que teve a infelicidade de o ver tombar à linha quando um comboio ia a passar e de socorrer a mãe antes de esta se atirar para tentar tirar o filho, ficando lá inutilmente.
— Alguém empurrou o garoto, sem querer?
— Não, o comboio ia partir e o garoto convenceu-se de que a mãe estava lá dentro, procurando-o pelas várias carruagens. Foi ao tentar entrar que se deu a desgraça.
— A mãe era de cá?
— Não. Nem se sabe de onde era.
— Como é isso possível passados vários anos? Certamente investigaram para ver se haveria família da pobre mulher que se pudesse ocupar dela.
— Claro que sim. As autoridades fizeram tudo o que puderam. Apenas se conseguiu saber que descera neste apeadeiro com o filho e, enquanto o comboio fazia uma breve paragem, ela aproveitou para se reabastecer de água e alimentos para os dois. Sem dar conta, o garoto afastou-se dela e, na confusão dos muitos passageiros apeados, uns para ficar e os outros para retomar o comboio, desencontraram-se. Quando o apito soou para o comboio retomar a marcha, tudo se precipitou para a tragédia que já conheces. Nunca se chegou a saber o nome, idade, nem de onde vinha a mulher porque ela enlouqueceu quando viu o filho destroçado sobre os trilhos do caminho-de-ferro.
— Não trazia bilhete e bagagem com documentos que a identificassem?
— Na mão tinha apenas um pequeno porta-moedas com algum dinheiro. Tudo o resto deve ter ficado no comboio, nas malas que depois seguiram abandonadas e foram possivelmente roubadas antes de o comboio chegar ao terminal, pois nada se encontrou que pudesse ter relação com ela ou com o filho.
Talvez tivesse partido para longe de alguém que não queria mais ou de uma vida que já não suportava. Certo é que nunca ninguém a procurou por cá.
— Talvez quisesse fugir de todos e nem tivesse dito para onde ia. — Aventou André, com voz triste.
— As fugas nunca dão bom resultado. — Afirmou o experimentado homem, conseguindo ler na alma do atormentado rapaz mais do que as palavras dele diziam.
Ele corou com a sabedoria do outro e disse apenas:
— Pobre mulher! Pobre senhor Joaquim!
Silencioso e comovido com a dor daqueles que inicialmente não compreendera, constatava agora que o seu julgamento e sarcasmo fácil o haviam afastado das verdades mais profundas do ser humano. Ali, como possivelmente em outras situações da sua vida de que não se dera conta. O que seria que de importante já lhe passara ao lado sem que ele se apercebesse? Nunca saberia, perdera a oportunidade de se enriquecer humanamente com essas situações e, quem sabe, talvez tivesse perdido importantes oportunidades de amar. Mas, certamente, nem tudo estava ainda perdido, era muito novo e decidido. O seu problema até ali era não ter escolhido ainda o seu rumo e agora encontrara-o, quando e onde menos esperara.
No dia seguinte, ao regressar aos jardins da Quinta, sentiu-se de ânimo renovado; a Casa-Museu e os seus refúgios na Quinta haviam-lhe tocado a alma e deixado saudades. No bolso levava umas luvas grossas de jardinagem que estendeu ao velho Joaquim, assim que o viu aproximar-se, já com o seu habitual macacão, dizendo-lhe:
— Aqui está um pequeno presente para si, com as minhas desculpas. Toda a estupidez tem limites e eu lá dei com os meus.
O jardineiro comoveu-se com o gesto e as palavras e, agarrando as luvas, voltava-as de um lado e do outro com jeitos de bom conhecedor:
— Sim, senhor, belas luvas! Obrigado, meu rapaz.
Continuava ainda sem compreender o que levava a mulher a deixar os seus objectos por ali, mas não se sentiu no direito de importunar as tristes memórias do senhor Joaquim. Até porque ele poderia pensar que as luvas eram uma espécie de macabro suborno para o ouvir contar as tristezas de uma ruiva louca e de um jardineiro solitário.
Estava entretido nos seus pensamentos, procurando ajeitar-se para retomar a escrita, quando sem dar conta, tropeçou num par de sapatos deformados que por ali se encontrava.
Apercebendo-se da situação, o jardineiro olhou-o expectante.
— Já sei, a dona virá buscá-los mais tarde. – Disse André.
O velho sorriu, feliz por ter assistido ao amadurecimento do jovem, e disse:
— Virá buscá-los mais tarde e deixará outro objecto no seu lugar, porque acredita que o seu filho anda por aí escondido com medo dos comboios e os refúgios da Quinta do Marinheiro parecem-lhe sussurrar que passou por ali.
— E qual a razão dos objectos?
— São sinais da sua presença, peças da sua roupa que o filho bem conhece, para que saiba que a mãe anda por perto à sua procura. É também por isso que usa sempre as mesmas roupas e não aceita outras que lhe queiram dar.
— Ela reconhece alguém?
— Só o meu rosto, que associa a alguém que conheceu o filho e com ela partilha as suas memórias que o eternizam.
— Sendo louca e sem noção do tempo, como sabe ela quando é o dia 1 de Julho de cada ano?
O jardineiro encostou-se a um tronco sólido como se procurasse forças para o sustentar e disse:
— Um dia, angustiado pela desgraça que não conseguia esquecer, voltei ao apeadeiro já noite alta. Quando cheguei, ela já lá estava, e chorava e uivava como um animal ferido. Peguei-lhe na mão e comecei a conversar com ela como se nada se tivesse passado. Pedi-lhe que me falasse do menino que tanto amava e os seus olhos ficaram com um brilho de felicidade como nunca vi igual. Compreendi então que, se ali fosse comigo partilhar as memórias do filho, não se lembraria da tragédia, mas sim do tempo que viveu com ele. Disse-lhe então que não podia voltar mais ali sozinha porque era perigoso para ela.
— Perigoso. — Concordou assustada, lembrando-se certamente do terror que vivera. — Mas o meu menino, se vem cá e não me encontra?
— Pode procurá-lo sozinha onde quiser, mas não aqui.
— Mas, e se ele vem aqui?
— Vou prometer-lhe uma coisa. Eu sou jardineiro na Quinta do Marinheiro, vou mostrar-lhe onde é, para lá ir. E, quando vir uma rosa branca num arbusto, é um sinal meu para si para virmos juntos ao Apeadeiro. Sozinha não, promete?
— Prometo. Rosa branca, vem comigo. Só eu não. Perigoso.
— Sim. Como se chama o menino? — Perguntei-lhe.
— O meu filho. — Respondeu-me ela.
Trouxe-a comigo à Quinta. Ela aprendeu o caminho e começou a aparecer por cá regularmente. Ainda lhe perguntei se queria ficar. Eu havia de arranjar como, mas ela respondeu que não podia, tinha de ir pelas redondezas até encontrar o filho. Desde então, todos os anos, no dia 1 de Julho, de manhã, coloco sempre uma rosa branca junto ao objecto que ela lá deixou e, quando soa o último comboio, ela dirige-se ao apeadeiro e eu também. A vida tem destas coisas! — Desabafou o bondoso homem.
— Mas também a alma do homem é grande e capaz de uma generosidade que faz a vida ter sentido... até para uma louca. Acredite que ela tem vivido mais no seu mundo que eu no meu. Tenho andado por aí meio perdido sem saber o que quero da vida. — Disse o rapaz.
— E já descobriste?
— Ainda não completamente, mas acho que por cá já fui encontrando pistas.
— Procurando é que se encontra, meu rapaz. E, nesta Quinta, descobriram-se coisas muito importantes para a humanidade.
— Tenho muito a aprender consigo, senhor Joaquim, tive sorte em o ter conhecido.
— E eu também, meu rapaz. Faz-me falta quem fique por cá a conversar. Os meus botões já conhecem bem demais as minhas mágoas. Vai saber-me bem ter ouvido fresco para as escutar; depois, ficam mais leves.
— Se não tivesse ficado só, poderia ter tido com quem partilhar essa dor. — Arriscou o jovem.
— Se não tivesse tido essa dor, não teria ficado só. Ver alguém perder quem ama tanto pode fazer-nos ter medo do amor. — Respondeu o jardineiro.
— Bem, sempre ouvi dizer que nunca é tarde para amar. — Provocou-o o rapaz, brincando carinhosamente.
— Aquela ruiva já me dá trabalho que chegue. — Respondeu o ancião, dando-lhe uma amigável palmada no ombro. — E, agora, chega de conversa ou tornamo-nos os dois uns mandriões, nem tu escreves nada nem eu podo o jardim.
André retomou a escrita e concluiu a sua tese muito mais rapidamente do que imaginava, para satisfação dele próprio, dos pais e do orientador da Universidade de quem se tornara grande amigo.
Despedira-se de Avanca com os seus habitantes no coração e prometendo nunca os esquecer. Eram figuras demasiado intensas para poder alguma vez ser esquecidas por mais longa que viesse a ser a sua vida. E eles sabiam que assim era, pois também ele tocara as suas vidas deixando laços invisíveis a uni-los.
Era 1 de Julho de um ano seguinte e o calor, o mesmo de sempre, naquela época do ano. Quem naquela manhã visitasse os refúgios da Quinta do Marinheiro estranharia encontrar por lá um chapéu coçado em cima dos arbustos, mas não André.
Este, sorrindo, depositou um pequeno botão de rosa branca junto a idêntica flor que já se encontrava ao pé do chapéu. Quando se voltou, só teve tempo de estreitar o abraço corpulento de um homem que lhe havia ensinado que a vida só vale a pena quando temos generosidade para acolher as fragilidades dos outros e convertê-las em força de vida para eles e para nós próprios.
André não resistira a voltar a Avanca numa data tão especial e a partilhar a grandeza de humanidade de um jardineiro que dava sentido à vida de uma mulher que perdera quem tanto amava. Devia a ambos o sentido que encontrara para a sua própria vida, antes à deriva.