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A corça do bosque (Conto)



 A CORÇA DO BOSQUE
Autora: Célia Chamiça

 "Dedico este conto ao meu marido, Jorge Paulo, com todo o meu amor"

Era Inverno na sua alma repassada de sofrimento que tolhia os movimentos e cortava as palavras, fazendo-as soar o ridículo. Mergulhada no leito dos lençóis em desalinho sentia-se impotente para viver mais uma hora que fosse. Ricardo fora o quanto lhe bastava para viver leve como uma pluma. Agora a sua memória escorria lágrimas de sangue, de tão viva que estava, agitando-lhe as entranhas em impulsos suicidas.
Maggie sempre fora uma mulher encantadora. O cabelo cor de fogo dava-lhe um ar quente envolvendo a pele branca como leite, semeada de pequenas sardas rebeldes. Os olhos, de um tom de mel que parecia querer escorrer até aos lábios, vermelhos como morangos, deixavam suspensa a respiração de quem a olhava. O seu corpo de marfim faria lembrar uma sereia, não fossem as magníficas pernas bem traçadas evidenciando-se continuamente com os movimentos graciosos do seu andar de gazela.
Maggie era uma mulher fresca que despertava o desejo de qualquer homem que nela pousava o seu olhar.
Esquiva como uma corça, Maggie parecia não ter a menor vontade de se dar a mais ninguém, a não ser à mãe-natureza, que a fizera brotar do seu ventre húmido, num dia luminoso, colorido e perfumado de Primavera.
Dotada de uma voz que fazia lembrar um trinado de pássaro, tinha ainda o encanto de cheirar a papoilas e malmequeres suavemente saciados pela aurora matinal.
Vivia numa modesta casa que enfeitava com graça e simplicidade na Aldeia de Xisto de Água Formosa no concelho de Vila de Rei, a 10 km do Centro Geodésico de Portugal.
Desde que aos vinte anos perdera os pais num acidente trágico quando se deslocavam num terceiro domingo de maio, como habitualmente, para a lindíssima Festa da Rainha Santa Isabel, a que ela própria os acompanhava e de que saíra ilesa, vivia sozinha, sobrevivendo com a venda dos seus famosos doces de amoras silvestres, framboesas e morangos, cuidadosamente cultivados junto ao poço, bem como dos magníficos queijos que produzia e da belíssima cestaria que fazia, ofícios tradicionais de que muito se orgulhava. O poço, caiado de branco e com uma trave negra a suster a roldana onde se prendia uma vigorosa corda de entrançado firme, era o grande confidente da sua solidão.
Os lindos cestos de verga fazia-os ao serão, se estava frio, junto à lareira, contemplando as chamas, suas companheiras fiéis de tantos Invernos a sós ou à soleira da porta, na companhia das estrelas, se a noite estava quente e tinha mesmo já um grande amigo de seus pais, também ele produtor de cestas que regularmente lhe ficava com uma parte da sua produção.
As lojas de Vila de Rei compravam os produtos acabados das suas mãos laboriosas e delicadas pois o sabor genuíno dos seus queijos e doces e a perfeição dos seus trabalhos era uma garantia de venda, sobretudo na Feira de Enchidos, Queijo e Mel que apresentava também o artesanato local entre o último fim-de-semana do mês de julho e o primeiro de agosto.
Para Maggie era dia de festa sempre que ia à bonita Vila de Rei entregar os seus cestos e doces, recebendo em troca o dinheiro que lhe permitia abastecer a sua casa com o que ela própria não cultivava ou ainda satisfazer um pequeno capricho da sua vaidade: uma saia de folhos que lhe parecia da cor do luar, uns sapatos que evocavam danças de salão, uma fita de veludo para o seu cabelo macio e livros para lhe fazer voar a imaginação.
Ricardo chegara um dia, por entre as folhas amarelas, tombando das árvores seminuas junto ao jardim da praça central. O seu cavalo tom de areia fazia soar, sob os cascos bem desenhados, o tapete de folhas envelhecidas que cobriam a terra, como que para a proteger dos primeiros frios do ano. Ele chegara com a carroça carregada de bugigangas que enchiam o ar de gargalhadas animadas das crianças e faziam homens e mulheres rodeá-lo em algazarra como num dia de festa em Vila de Rei.
Maggie vira-o chegar ao longe, com a suavidade de uma pomba e, de repente, a sua chegada transformara-se em festa. Aquela chegada invulgar inundou também de alegria o coração livre e leve como as nuvens da jovem rapariga.
Ele depressa se deu conta daquele vulto, quase fantasma, escondido por entre as sebes; daquela presença feminina, forte e volátil ao mesmo tempo. Desejara intensamente envolvê-la, fundindo-se com ela num abraço integral e arrebatador.
Ensinou-a a desvendar os diferentes cantos dos pássaros e a escutar as melodias do vento unindo-se à chuva lá fora, enquanto crepitava a lareira. Nesses momentos de intimidade, lera-lhe o livro que ela própria era, falara-lhe da constância das estações do ano, da fidelidade das andorinhas à Primavera, do que arrulham na intimidade os pombos apaixonados. Mas, nada revelara de si próprio.
Maggie pouco viajara pelo concelho de Vila de Rei e ele, solicito, levou-o a uma das suas bonitas praias, a praia fluvial do Penedo Furado, sempre muito procurada pelo seu encanto natural.
Maggie era bela e ingénua e ele soube desvelar-lhe não apenas os encantos do local como os dela própria que parecia abrir-se perante si própria como uma rosa por desflorar. Sentiu as carícias dele como um aroma quente e envolvente que nunca sonhara sentir e sem sequer pensar no que se seguiria àqueles momentos mágicos que a enebriavam.

 



 

Fonte da fotografia: Site da Câmara Municipal de Vila de Rei:

http://www.cm-viladerei.pt

 

 

Quando partiu para outras paragens, saciado com o fresco encanto de Maggie, levava já consigo a sede de novas paragens pelo distrito de Castelo Branco e outros distritos do nosso encantador país que costumava percorrer. E, sem que sequer tivesse tido tempo de o saber, depositara no jovem ventre uma semente fecundando o mistério de uma nova vida.
Maggie odiou aquele corpo estranho que sem se fazer anunciar e independentemente da sua vontade crescia dentro de si, desengonçando-lhe o andar e dilatando-lhe a silhueta outrora esguia. Sentia aquela criança agitar-se no seu invólucro bojudo como se fosse um espinho cravado no seu corpo que ela gostaria de arrancar da estufa tépida em que se transformara.
Decidida a arrancar de vez aquela memória de paixão fugidia, procurou a velha parteira que ajudava a nascer crianças e vitelos com a mesma simplicidade com que escolhia ervas para curas de enfermidades.
Confiante de que as mãos hábeis da idosa iriam finalmente libertá-la daquele rebento de engano que não queria acolher, partiu por entre os campos floridos e perfumados. As mãos da velha parteira que a havia trazido também a ela à luz do dia não iriam certamente negar-se agora a aliviá-la daquela presença indesejada que parasitava o seu corpo e lhe torturava a mente. Iria finalmente ver-se livre daquele suplício que se instalara dentro dela e lhe consumia as energias e a vontade de viver.
Encontrou a idosa junto ao pasto onde saciava a sua única cabra, que se diria servir-lhe mais de companheira, que de qualquer outro préstimo, tal era a avançada idade do animal e a dificuldade com que se movia sobre as suas trôpegas patas. Agarrada ao seu bordão, a velha sorriu-lhe, desdentada, assim que a viu aproximar-se.
O fiel cão que a acompanhava em todas as caminhadas ergueu a cabeça para se assegurar se era alguém de confiança quem se aproximava. Tendo-se certificado com o olfacto e a visão de que assim era, voltou a tombar a cabeça na sua semi-sonolência, sempre vigilante.
A anciã olhou a rapariga com a perspicácia da sua avançada idade, muita experiência de vida e os rumores da aldeia, tendo de imediato captado ao que vinha. Achou então que a força do momento justificava que revelasse um segredo guardado há vários anos, tantos quantos os que tinha Maggie. Por isso lhe disse:
— Senta-te, rapariga. Preciso que me escutes com atenção.
E, apontando-lhe um tufo verde para que se sentasse a seu lado, revelou-lhe, então, que as suas mãos não a haviam retirado do ventre daquela que Maggie sempre supusera ser a sua mãe. Os pais, cuja perda tanto chorara, não eram os seus progenitores, mas sim seus pais adoptivos. Jurara-lhes nunca revelar tal segredo, a não ser que alguma fatalidade a isso a obrigasse.
A jovem sentiu-se desfalecer ao escutar tão forte e inesperada revelação.
A anciã continuou o seu relato desenterrando o passado e desvendando o mistério. Explicou que não fora difícil aos pais adoptivos de Maggie manter credível a história do seu nascimento porque a mulher que a acolhera como sua própria filha dera à luz uma criança já morta na mesma noite em que a mãe de Maggie trouxera ao mundo a filha, nascida de uma relação de adultério com um célebre médico de Vila de Rei que habilmente conseguira esconder do marido aquela relação durante o tempo que a mesma durara. Dizendo-se frequentemente doente, deslocava-se com regularidade a Vila de Rei para consultar o médico por quem se apaixonara intensamente e que a sabia amar como o marido nunca soubera. Quando a soubera grávida ficara encantado, quisera partir com ela para longe dali e recomeçar uma nova vida com o filho que já imaginava com rosto parecido com o seu naquele ventre que ainda não desvelava o segredo da maternidade. Porém, a mulher não conseguia assumir a culpa de deixar o seu marido que sentia depender dela como se fosse uma criança e temeu que se ela partisse ele pusesse fim à sua vida de forma trágica o que faria com que ela vivesse para sempre com um rasto de sangue na sua alma.
Sem que o seu amado médico soubesse, a mãe de Maggie havia tentado libertar-se do fardo que para ela constituía aquela criança indesejada, mas não tinha coragem e o tempo ia correndo. Um dia, partiu da aldeia vizinha e decidiu-se a regressar a Vila de Rei e visitou o médico uma vez mais, que seria a última vez. Contou-lhe que fizera um aborto e ele não lhe perdoara ter-lhe roubado o seu próprio filho, pelo que lhe pediu que nunca mais voltasse e lhe comunicou que nesse mesmo dia aceitaria o convite de um amigo para integrar a clínica que este possuía em Lisboa, partiria tão rápido quanto possível e não pretendia despedir-se dela. No mês seguinte chegou o seu substituto para o posto médico onde exercia medicina e partiu sem nunca mais ter visto a mãe de Maggie.
No entanto, não conseguia desfazer-se daquele filho a quem se afeiçoava a cada dia que passava e o ventre foi colocando em evidência crescente o emergir de uma nova vida.
O marido contemplava feliz a mulher e perguntava-se o que a levaria a manter o segredo da sua recente maternidade, teria ela medo do parto e por isso não pretendia assumir? Tinha ouvido dizer que muitas mulheres tinham pavor desse momento, mas achou melhor não a abordar sobre o assunto, pois não sabia como o fazer. E, convencido que se tratava de um filho seu, vigiava-a cada vez mais para impedir que pusesse fim aos dias da criança, pois não via outra razão que não essa intenção dela para manter secreta a criança que desabrochava no seu ventre fértil.
Ela, sentindo essa perseguição cerrada do marido e a alegria que o rosto do homem não conseguia esconder compreendeu que ele pensava que o filho era seu. Mas, ela não pretendia viver com ele e uma criança que nada lhe era e nada teria de seu, pelo contrário evocaria para sempre a história de um grande amor perdido que a dilacerava embora se sentisse responsável pelo triste desfecho do mesmo.
Decidiu, então, que sufocaria a criança logo que nascesse, simulando um acidente de parto. No entanto, tal não veio a suceder porque a parteira, conhecedora da situação que conservava em segredo, se encarregou de trocar duas crianças nascidas na mesma noite, entregando a criança morta à mãe de Maggie e entregando esta aos seus pais adoptivos, que aceitaram aquela bênção de vida, jurando solenemente nunca quebrar tal segredo, pois eles bem sabiam que poucas horas antes a sua filha nascera morta e o desgosto terrível rompia-lhes as entranhas. Juraram à anciã nunca revelar o segredo, o que cumpriram até à sua trágica partida desta existência terrena, sempre a prazo.
Maggie sentiu dentro de si a criança agitar-se e identificou-se com aquele pequeno ser já não o percepcionando como um estranho, mas como alguém unido a ela pelos laços de uma origem comum: ambos tinham sido indesejados. Era a primeira vez que aceitava o misterioso habitante do seu ventre. Um gesto instintivo fê-la acariciar a barriga protuberante e pareceu-lhe sentir uns pequenos dedos mexendo-se timidamente. Estabelecera-se a comunicação. Aquele contacto íntimo comoveu-a não sabendo dizer se assim se sentia pela força do momento em que contactava com o seu filho pela primeira vez, se por se sentir grata por lhe ter sido poupada a vida numa troca por um nado-morto ou ainda se pela dádiva de um sentido que agora redescobrira para a sua vida. Num ímpeto de coragem e de dádiva quis que a criança que crescia dentro de si pudesse um dia vir colher papoilas nos prados e beber água fresca na nascente porque ela, Maggie, decidira deixá-la viver.
— Porque me procuravas? — Perguntou a velha parteira, lendo-lhe os gestos suaves.
Respondeu-lhe de pronto a rapariga:
— Para lhe pedir que quando chegar a hora me ajude a parir um filho que trago dentro de mim.
A anciã viu-a afastar-se e sentiu-se serena e confiante. Finalmente libertara-se do pesado segredo e sentia que o pequeno habitante no seio de Maggie lhe mostraria uma vida em plenitude, mais do que nunca, cheia de sentido. Talvez finalmente a rapariga se decidisse a ir viver para Vila de Rei como sempre sonhara. A cidade onde estudara e que ela conhecia e amava desde sempre. A perspectiva de poder dar uma vida com mais qualidade ao seu filho certamente a mobilizaria para reiniciar a sua própria vida que ficara como que parada no tempo com a morte dos pais.
Ia nascer-lhe um filho, a vida libertá-la ia do peso da morte que a vinha assombrando. Era tempo de luz e de esperança para Maggie. Vila de Rei esperava por ela.

Conto eleito como o 3º melhor texto no XI Concurso Literário Descobrir Vizela e publicado em 2014 em formato digital por aquela Câmara Municipal em: http://www.cm-vizela.pt/files/Artigos/Cultura/3_premio.pdf e na versão “A corça do bosque e os seus ofícios tradicionais”, no mesmo ano recebeu menção honrosa do Prémio Literário Padre João da Maia, da Câmara Municipal de Vila de Rei.