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01/06/2014

A esperança vivida por um sem-abrigo de Lisboa

Caros visitantes virtuais,
Escrevo-vos hoje sobre uma pessoa muito especial que conheci há cerca de dois meses e com quem tenho tido conversas muito interessantes e enriquecedoras sobre esperança.
Chama-se André, é de nacionalidade L. (não identifico por razões de segurança do próprio), tem 43 anos, e é um sem-abrigo de um dos muitos largos de Lisboa que, pela mesma razão, não identifico. Este post é-lhe dedicado e ele autorizou a que o escrevesse e ler-lho-ei, pois ele como é de calcular, não tem acesso a computador, muito menos internet. No entanto, não dispensa a música. À noite, deitado sob o seu abrigo, adormece sempre a ouvir o pequeno rádio que é o seu conforto das noites quentes ou frias.
As fotos contidas neste post são todas reais e estão a ser publicadas com autorização do próprio. Claro que tive o cuidado de as tirar por forma a não permitir identificar o local, de onde André de vez em quando tem que se ausentar para depois regressar por forma a proteger-se dos perigos e ameaças constantes que a sua situação envolve. Nunca sei quando parte ou regressa, mas vem sempre com o mesmo sorriso ao meu encontro. Um sorriso de quem tem uma alma limpa e sente a alegria de encontrar um amigo que sabe que o escuta com todo o respeito e consideração e em quem pode confiar os seus segredos que se tornam mais leves quando partilhados, como sucede com todos os verdadeiros amigos. Eu, encontro-o também sempre com a mesma alegria quando ele regressa, sem ele o largo fica vazio e sem alma. Claro que desejo que a sua situação se resolva, que consiga reaver novos documentos para que possa finalmente ter trabalho e voltar a ter um quarto e dinheiro para comida certa todos os dias, mas quando isso suceder, a minha alegria será sempre maior e para mim aquele ficará sempre a ser o Largo do André.
André é pela quarta vez sem-abrigo em Portugal, é limpo e cuidado com a sua higiene que faz mal inicia a madrugada com água do fontanário e champô diluído para não gastar demasiado. Cuida das suas poucas roupas, tem um abrigo impecável e vejo-o sempre feliz e a sorrir apesar das muitas agruras pelas quais a sua vida já passou, entre as quais ser tropa na Rússia, ter tido dois casamentos falhados, dramas familiares e problemas de emprego por causa de não se submeter às mafias, à corrupção de documentos nem à traição de amigos que ele protegeu quando chegaram e que o roubaram depois. Mas, tudo isto ele aceita como fazendo parte da vida. Diz que Deus dá o sol e a chuva e que gosta de ambos, apesar de no seu abrigo não ter o conforto de uma casa.
 
 
Arranjou-me numa mercearia um cartão limpo que guarda e me traz sempre que venho conversar com ele ao largo, para eu me sentar sem o banco estar frio nem quente. Partilhamos conversas sobre o ser humano e sobre a vida. Quando lhe roubaram o cartão, passou-me a dar o casaco dele para eu me sentar, tendo sempre a sensibilidade de dizer que está lavado. As atenções mais simples e mais despojadas são as que mais nos tocam pois são as mais genuínas e gratuitas.
Tratava-me por tu, mas por “ a senhora” e quando percebeu por terceiros que me viu tratar assim as funções profissionais de chefia que eu desempenhava passou a tratar-me por “doutora”. Eu disse-lhe que não me tratasse assim e ele explicou-me que era uma questão de respeito. Acho admiráveis os valores educativos dele, embora me deixasse desconfortável aquele tratamento que me fazia lembrar os tempos senhoriais de classes abastadas claramente separadas pelas classes trabalhadoras. Até que ele sentiu que o tratamento certo para mim, era mesmo Célia e é o que usa agora, desde o primeiro dia em que se comoveu ao falar comigo, o que sucedeu passadas longas conversas. Somos agora dois amigos, iguais em dignidade humana, mas infelizmente em diferentes condições de dignidade de existência de condições básicas.
 
 
 
André é uma força da natureza, um poço de valores éticos e de força na adversidade, uma genuína força de esperança e de humanidade com quem muito tenho aprendido e que por isso partilho neste blogue com muito gosto, pois creio ser útil para os meus visitantes virtuais sejam quais forem as suas idades, género, classe económica ou social.
Nunca me pediu nada, pelo contrário, um dia tinha dinheiro para cigarros e fez questão de me oferecer um dos dele. Eu um dia convidei-o para tomarmos juntos algo no café mais próximo. Foi uma conversa rica como sempre, vinda de um homem que sente a esperança em cada dia apesar de não ter o conforto físico que qualquer ser humano merece.
De vez em quando partilho com ele metade do meu almoço, que acho sempre excessiva a dose que servem nos restaurantes e que infelizmente na maior parte dos casos se destina ao lixo, o que é um desperdício que me incomoda. Trago-lhe por vezes o almoço e falamos sobre ementas que ele já provou e rimos com descontracção dos pombos no largo sobre os quais ele pela cor sabe dizer se estão saudáveis ou doentes e muitas outras coisas que aprendeu com os hábitos de vida destes seus companheiros de rua.
André não tinha trabalho porque teve que ultrapassar montanhas para reaver novos documentos de identificação e carta de condução, pois os que tinha foram-lhe roubados. Agora que já conseguiu superar muitos obstáculos, que me contou e não conto para o proteger, sonha voltar ao seu país. Partilhou comigo os seus tesouros, brochuras do seu país e mapa do mesmo onde localizou a sua terra-natal onde tenciona voltar, aonde não vai há 14 anos, desde que veio para Portugal, onde sonha rever locais e pessoas que lhe são queridas e regressar ao nosso país que diz que é um país muito bonito onde vale a pena viver.
Vi-o retirar do lixo um saco de pão intacto ainda com a etiqueta do supermercado onde tinha sido comprado e tive vergonha de todos nós os que desperdiçamos sem pejo nem respeito os bens que temos e que são essenciais para a vida de tantos sem-abrigo e tantos pobres deste país.
Ao pé de mim arranjou um chapéu-de-chuva quase novo, a que apenas bastava arranjar uma vareta, o que ele fez com mestria, mostrando-me depois orgulhoso o seu trabalho. Mais uma vez tive vergonha de nós os que desperdiçamos sem consciência os bens que possuímos e que não valorizamos como merecem ser valorizados e respeitados pois são produto do trabalho de alguém e pagos com o dinheiro do nosso trabalho que nos custa a ganhar e a que muita gente em Portugal e no mundo não tem.
 
André mantém o “seu” largo impecavelmente varrido e compra lixivia para desinfectar os bancos de pedra que jovens inconscientes e embriagados enchem despudoradamente de urina quando saem das discotecas, bem como arranja outras alternativas para os bancos que estão já destruídos. Indigna-se com as faltas de educação e de valores de jovens que crescem sem desenvolver personalidades de respeito perante os outros e a vida. Abana a cabeça desconsolado com o que vê nessas noites de folia muitas vezes inconsequente de jovens que constroem o vazio por cima de vidas que merecem tanto valor e que eles desprezam e desperdiçam, pois de toda aquela embriaguez resultam apenas tristeza e desilusão, bem como muitas vezes uma ociosidade que se vai instalando e os desliga do esforço que todos temos que fazer para viver uma vida saudável, equilibrada, sociável e feliz, sejam quais forem as condições económicas e sociais em que vivemos.
Lembrei-me agora que nas nossas muito e sempre agradáveis conversas, construtivas e esperançosas me esqueci de lhe contar que li em tempos na internet que um sem-abrigo dos Estados Unidos da América, de nome Glen James, encontrou uma vasta quantia de dinheiro e o foi devolver. Quando estiver com ele na próxima semana vou levar um print deste post do blogue e ele vai ficar feliz por saber que pelo mundo inteiro vai havendo gente de caráter reto e não apenas pessoas que se roubam umas às outras, que se agridem e violentam, que traem amigos que os ajudam, meio que ele, infelizmente, bem conhece. Mas, sempre depois de me contar cada um dos terríveis episódios que tanto o têm feito sofrer, diz que há que ir em frente, orgulhoso da sua formação de homem-de-bem e das dádivas que Deus lhe vai concedendo.
Aprendi e continuo a aprender muito com André, por isso partilho convosco esta forma de viver em esperança e ser esperança em cada dia, mesmo não tendo abrigo nem o mínimo essencial garantido. Eu diria que André vive como os lírios do campo que Deus veste de cores magníficas e que, como diz a Bíblia, nem na rica corte do Rei Salomão houve vestes que se lhe pudessem comparar.
Eu considero um privilégio tê-lo conhecido e estou-lhe agradecida por me ter deixado aproximar dele, por ter aceite e continuar a aceitar partilhar comigo episódios e palavras que tanto revelam da vida, da sua vida, da vida de todos nós e do seu sentido. No caminho um do outro para eu poder aprender melhor o que é verdadeiramente importante na vida e fazer chegar até vós, caros visitantes virtuais, espalhados pelo mundo, que não conheço, mas a quem me sinto ligada pois sei que leem estas palavras e que, para muitos de vós elas vos dizem algo, ou este blogue não teria já mais de 12.000 visitas do mundo inteiro, o que me surpreende e enternece cada vez que consulto as estatísticas de visitantes virtuais e as cidades e países de onde acedem a este blogue. Obrigada pela vossa presença do outro lado deste blogue. Estou convosco, deste lado escrevendo e cada um de vós do outro lado lendo. Sintam-se à vontade para deixar os vossos comentários e questões, embora saiba que a maioria prefere ler e manter-se na sua intimidade reservada. Não importa a atitude, o que importa é que nos liga esta busca constante da esperança em cada dia. E, ela existe ou eu não conseguiria escrever tantos posts sobre esperança desde que iniciei este blogue em julho de 2011 e continuo por aqui, mais regular ou menos regularmente, conforme a minha vida o vai permitindo.

E, como acho que nada na vida acontece por acaso e que cada pessoa que verdadeiramente conhecemos se estivermos de alma genuinamente aberta ao outro é uma preciosidade incomparável a qualquer riqueza, talvez Deus nos tenha colocado no caminho um do outro com um propósito, o de nos enriquecermos um ao outro e nos valorizarmos mutuamente como seres humanos em cada dia e o de eu o levar até cada um de vós através do meu blogue.

Aprenda a ter esperança com André, caro visitante virtual, com o que é e não com o que tem. Vale a pena, acredite. Ele é feliz e uma grande lição de esperança e felicidade para todos nós.
CC