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06/04/2012

Redescobrir a alegria e a esperança na Quaresma


Caros visitantes virtuais,
Vi ontem um filme que vos convido a ver, caso ainda o não tenham feito. Está atualmente em exibição nas salas de cinema e na tradução portuguesa surge com o título “Amigos Improváveis”. Eu confesso que prefiro o título original Francês “Intouchables” porque a amizade que une os protagonistas assume uma força que os torna intocáveis, imunes às vulnerabilidades da vida e inatacáveis por aqueles que não veem com bons olhos uma relação que lhes parece estranha.
O argumento do filme é de Eric Toledano e Olivier Nakache que se inspiraram num caso verídico para esta realização, feita também por ambos e que tem uma qualidade que nos mostra bem que o cinema europeu, se for de boa qualidade, em nada é inferior ao produzido pela grande máquina americana de Hollywood.
François Cluzet desempenha o papel de um dos protagonistas, neste caso um paraplégico por acidente na prática de um desporto radical e Omar Sy desempenha o papel do outro protagonista, neste caso um jovem africano residente num subúrbio francês e vivendo de subsídio de desemprego cuja única preocupação é contornar o sistema dizendo que não foi aceite num emprego a que se candidatou para manter por mais seis meses esse mesmo subsídio. O desempenho de ambos os atores é fabuloso e arranca-nos risos e lágrimas na redescoberta que acontece naturalmente entre ambos de um novo sentido para as suas vidas e que resulta do prazer e da alegria de viver que em cada dia vão encontrando juntos nas pequenas coisas.
Devo confessar que hesitei em escrever este post porque quando falamos ou escrevemos sobre uma realidade tão sensível como é a da perda da nossa independência física em razão de doença ou acidente não sabemos de fato o que é estar desse lado, simplesmente porque não estamos lá, embora possamos vir a estar. Mas há quem já esteja nessa condição de vida especial, nos ouça e nos leia. E essas pessoas, amigos e desconhecidos, merecem-me todo o respeito e admiração.
Esta semana os cristãos, onde me incluo por razões de assumida e vivida Fé, vivem a última semana da Quaresma, com particular incidência para os três dias que antecedem a Páscoa que celebra a ressurreição de Jesus Cristo.
Quer esta situação de Fé quer o filme inspirado num caso verídico interpelam cada um a deixar-se partir ao encontro do outro, daquele que parece improvável que possa ter algo a ver connosco, mas que na autenticidade da entrega se revela o único capaz de nos mostrar de novo a alegria de viver, o prazer de usufruir das pequenas coisas, a cumplicidade da revelação das nossas fragilidades, a força para ousarmos o que nunca tivemos coragem de dizer ou fazer, e assim… nessa entrega incondicional… constrói-se a genuína e autêntica relação de amizade que de tudo é capaz pelo outro.
O filme interpela-nos interiormente sobre a forma como vivemos a nossa vida individual, mas também social, pois aborda a questão da relação de cada um com o outro que é diferente de si por condições de vida que não conhecendo, colocam reservas e parecem tornar improvável uma ligação entre ambos. Condições de doença ou acidente, de riqueza ou pobreza, de vida numa zona nobre da cidade ou nos subúrbios, de nacionalidade e de raça, de cultura de elite ou popular, de vida de rendimentos ou de subsistência à base de subsídios sociais … tudo condições que parecem conduzir à desconfiança em relação ao outro, ao diferente, mas que resultam numa amizade entre “improváveis” que tem a beleza ainda maior de ser inspirada num caso verídico.
Para os cristãos a questão do prazer há muitos séculos parece ser um tabu. E a Quaresma apareceu e continua a aparecer ligada à ideia de sacrifício, pois Jesus Cristo foi de fato, historicamente, vítima das suas convicções e acabou na morte mais ignóbil que era a crucifixão. Para mim, Jesus Cristo foi um homem de notável Fé e coragem que no seu tempo, e sem preconceitos, denunciou a supremacia dos poderosos e as muitas violações de direitos humanos e sociais, nomeadamente em relação às mulheres (O alto clero não deveria esquecer esta faceta de Jesus, em especial o Papa, a quem maiores responsabilidades estão cometidas como chefe da Igreja Católica).
Jesus Cristo continua para mim a ser uma inspiração de valores de Fé, de fraternidade, de solidariedade, de luta pelas causas sociais e contra todo o tipo de discriminações, luta pela igualdade de oportunidades entre todos e pela dignificação do ser humano em todos os contextos individuais e sociais.
Cristo quis fazer prevalecer o seu renascer para nós sobre o sacrifício a que foi sujeito pela ousadia de desafiar os que oprimiam os mais frágeis da sociedade. Prefiro, pois, ver a Quaresma, este momento anual e especial da Fé dos cristãos, associada ao prazer de viver ideais que nos levam ao encontro do outro e nos fazem partilhar fragilidades, derrubar muros, dar mãos e construir cumplicidades que despertam sorrisos, mesmo nas vidas e momentos da vida de cada um onde é mais improvável reencontrar a alegria de viver.
Nada nos faz mais felizes do que a alegria das pontes que construímos em direção ao outro…ver o outro genuinamente abrir-se e entregar-nos confiante o seu sorriso aberto faz-nos valer a pena acordar em cada dia e faz-nos sorrir mesmo sem darmos por isso, porque o sorriso brota do nosso interior.
Caro visitante virtual, não tenha preguiça nem medo de ir ao encontro do outro, vale mesmo a pena. Desejo que encontre a sua “amizade improvável”, uma que seja, é já uma preciosidade e vai fazê-lo sorrir de forma renovada e retemperante. E, se for Cristão, desejo-lhe ainda uma Feliz Páscoa.

C.C.