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26/02/2012

A esperança que brota da liberdade


Caros visitantes virtuais,
Faz este ano um quarto de século que Zeca Afonso soltou o seu último sopro de vida. O seu corpo foi acompanhado por mais de trinta mil pessoas. Pediu que a sua urna fosse coberta com um simples pano vermelho, tão vermelho como os cravos da liberdade que ajudou a semear no país e um pouco por todo o mundo onde foi cantando em vida e onde ainda hoje os seus discos e as suas músicas e letras continuam a contagiar e a interpelar-nos.
Quero, também eu com este simples post, associar-me às comemorações que percorrem o país evocando essa figura forte, íntegra, genuína e coerente de homem que lutou por valores de liberdade, igualdade e fraternidade. Homem este com quem espero que os nossos homens e mulheres de hoje e do futuro aprendam, sejam eles e elas governantes, políticos dos mais variados quadrantes e cidadãos deste país e do mundo.
Zeca nasceu em Aveiro, em 1929, fez a sua licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras, da Universidade de Coimbra, tendo nesse contexto académico apresentado uma tese sobre o grande filósofo existencialista Jean-Paul Sartre. No entanto, não foi à Filosofia que Zeca Afonso se dedicou, mas sim à preocupação constante da denúncia da ditadura salazarista e sua opressão sobre os direitos e liberdades dos cidadãos. A sua paixão foi viver no meio do povo e ajudá-lo a construir a liberdade.
O facto de passados 25 anos após a sua partida continuar tão vivo entre nós constitui, na minha perspetiva, um sinal de esperança de que, apesar do materialismo, da quase ditadura da economia em que hoje vivemos, algo dentro de nós continua a gritar-nos o que é realmente importante para o ser humano: que vivamos livres, que procuremos construir a igualdade de dignidade e de direitos, que vivamos em fraternidade, que sejamos solidários, que não vivamos sob o culto do consumismo e do individualismo e que não deixemos nunca de lutar por uma sociedade mais igualitária e dignificante para o ser humano.
Zeca Afonso foi não apenas um homem que lutou pela liberdade e fraternidade, como fez da sua vida um exemplo dos valores que tanto propagou como autor, intérprete e cidadão civicamente activo e empenhado na promoção da liberdade e da democracia. Teve sessões artísticas impedidas de se concretizar pela PIDE/DGS (Polícia Política ao serviço da ditadura), foi preso, foi afastado da sua função de professor, viveu com dificuldades financeiras e lutou com a doença. Mas, mesmo com essas limitações, a sua vida foi uma ação constante de entrega à causa da liberdade.
Foi de tal modo coerente consigo próprio que não aceitou integrar o Partido Comunista Português, por entender que por questão de classe o não deveria fazer, pois não pertencia ao proletariado: o pai era juíz, a mãe era professora primária e ele próprio professor.
O então Presidente da República Ramalho Eanes quis, justamente, condecorá-lo com a Ordem da Liberdade e ele recusou porque não era um homem que, como ele disse um dia “se quisesse tornar numa instituição”. Outro Presidente da República, Mário Soares, quis também justamente, a título póstumo condecorá-lo, mas a mulher de Zeca, respeitando o que bem conhecia serem os valores do marido, recusou também essa elevada condecoração.
Zeca Afonso é um homem exemplar para nós, despojado de vaidades, que não precisa de condecorações para ser lembrado e constituir para nós a esperança e a inspiração que nos é trazida pelos grandes homens carismáticos da história de Portugal. As suas palavras, neste caso escritas, musicadas e interpretadas por ele e por tantos outros que com ele partilharam vida e valores e outros que lhe deram continuidade dão-nos o alento de não esquecer a Fraternidade, a Igualdade e a Liberdade.
Quem quiser conhecer mais sobre Zeca Afonso e suas obras, poderá visitar a Associação Zeca Afonso em: http://www.aja.pt/

Coloco neste post uma das suas letras e músicas mais célebres de Zeca e que é profundamente significativa para a história da democracia em Portugal: Grândola, vila morena:

“Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira.”

Esta canção foi a senha política para que o Movimento das Forças Armadas (MFA), no dia 25 de Abril de 1974, derrotasse a ditadura de Salazar.
Nunca a deixemos cair no esquecimento:

Uma boa semana, caro visitante virtual,
C.C.