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13/11/2011

Uma esperança que brota de gente muito especial


Caros visitantes virtuais,

Este meu post fala de pessoas muito especiais. Há muitas no mundo, mas eu falo-vos das que tive o privilégio de conhecer ao longo da minha vida e que nela deixaram e continuam a deixar a luz de uma esperança que só eles sabem irradiar.
O quadro acima, que digitalizei para partilhar convosco neste post, foi feito para mim pelo Luís, em Fevereiro de 1985, e guardo-o como um tesouro desde então. O Luís era uma criança que tinha leucemia, sabia que ia partir e por isso me quis deixar algo da força e esperança que transportava consigo. Ele e o Pedro, nunca se conheceram um ao outro, partiram ambos com idades muito próximas, levados por doenças que a medicina ainda não conseguiu resolver. Ainda hoje sinto nas minhas mãos as carícias de Pedro, já quase invisual e por isso carecendo ainda mais do toque da pele como forma de comunicação adicional.
Foram estas duas crianças que me ensinaram que a esperança existe em cada dia, que vale sempre a pena sorrir e que as razões da esperança estão dentro de nós e na alegria do contacto com os que nos amam e que ficam connosco por toda a eternidade, mesmo para além dos nossos próprios limites. Obrigada Pedro e Luís, continuamos juntos ainda hoje e em cada dia.




Há uns tempos alguém que me questionava onde teria eu assunto para escrever um blogue sobre esperança num contexto nacional e mundial onde abundam as más notícias. Falei disso com algumas pessoas amigas, e a Sílvia Antunes, na foto acima em plena alegria académica, quis saber se eu era jornalista. Disse-lhe que não. Ainda assim achou que valia a pena partilhar comigo a sua forma de estar na vida, e disse: "Há sempre coisas boas a dizer com o sumo da poesia". Esta frase dita por uma lutadora constante e um sorriso de alegria transbordante fazem esquecer todos os limites físicos que são muito inferiores aos limites que cada um de nós sente em ultrapassar a barreira do negativistimo quotidiano. A poesia da vida encontra-se naqueles que nos rodeiam e nos fazem sorrir de coração escancarado para estar com o outro, porque é o tempo com o outro que vale a pena. Obrigada, Sílvia.




Em 1989 fui à Noruega onde tive a oportunidade de conhecer crianças muito especiais. Este país europeu tem uma longa tradição de educação inclusiva e de tratar de modo especial, mas simultaneamente integrado, as crianças e jovens com necessidades educativas especiais. Aí tive oportunidade de participar numa actividade de dança que nunca mais esqueci. Todos juntos numa roda, num jogo de formas, utilizávamos a expressão corporal para exprimir a música que soava alegre. O sorriso mais feliz de todos, radioso e intenso como nenhum outro, era o de uma criança que não podia mover um único músculo, pois atacada precocemente por esclerose múltipla tinha um esqueleto exterior de aço que, dos pés à cabeça, lhe suportava o corpo.
A actividade prosseguiu e este menino especial foi o meu par de dança. Escolheu-me com o olhar e fez-se transportar para junto de mim, onde ainda hoje está, com o seu sorriso forte e terno, no meu coração.

Desde então tenho muitas vezes tido o privilégio de estar com gente muito especial com quem partilhei momentos de grande esperança e alegria.

Vi crescer o Fernandinho, cujo carinho intenso dos pais e dos irmãos apagam em cada dia os vestígios do Síndrome de Down. A alegria dos seus beijos sempre intensos, em cada reencontro, permanece há mais de trinta anos.

A Mafalda, agora uma bela jovem autónoma, tinha uma sede de aprender e alegria constante contagiantes. Os olhos não captam o universo à sua volta, mas as mãos e os ouvidos trazem-lhe o toque e o som da ternura. O arrojo levou-a a experimentar o paraquedismo, o que eu nunca me atreveria a fazer por mais que gostasse de experimentar. Sempre a vi e continuo a ver com um sorriso nos lábios e uma energia incomparável para estar no mundo, vivendo-o em plenitude.

A Rute não tem questões, tem a certeza de que o mundo é a coisa mais bela que existe, pois nela estão todos os que amamos e nos amam muito. A Fé desta jovem não vacila porque não encontra razões para vacilar, sente que tudo à sua volta é amor e que tem por isso muitas razões para sorrir. Uma cadeira de rodas é como um par de sapatos que temos que usar no dia a dia, não é nada de mais. Numa tarde nos jardins do Palácio de Mafra dançámos juntas e chorámos a rir da nossa capacidade inventiva.




Convido-vos a ver o belíssimo e comovente par que dança um tango ímpar em:
http://www.youtube.com/watch?v=hZDX2LnXbqM&feature=player_detailpage


É ou não especial quem dança assim? Quem passa pela vida deixando um rasto de Esperança na intensidade do sorriso genuíno que não depende de nada, a não ser do amor. Temos muito a aprender com esta capacidade de desprendimento, de entrega, de coragem e de valorização do que a vida tem de melhor... o Amor.


No Brasil há uma instituição dedicada às pessoas muito especiais. Encontra-se em : http://www.muitoespecial.com.br/

E por todo o mundo há instituições e blogues onde se reúnem os que encontraram a esperança em caminhos de vida diferentes em que nasceram ou a vida lhes impôs.

Dedico este post às pessoas que nele referi, às que não referi mas que sabem que penso nelas porque sempre foram ou se tornaram em algum momento da vida, muito especiais. Para elas e respectivos pais que sabem como ninguém quanto é intenso viver um Amor assim, deixo um abraço muito especial, cheio de carinho e ternura, cheio de admiração e grata pela Esperança, Força e Alegria que transmitem aos que têm o privilégio de acolher nas suas vidas especiais.

Uma boa semana, caros vistantes virtuais,



C.C.