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10/12/2016

Ao encontro dos nossos idosos... neste Natal e em cada dia


Dedico este post ao meu tio Aníbal que há pouco tempo perdi, e que não era para mim um idoso, era simplesmente o meu tio Aníbal,
À memória da minha mãe, Maria Eugénia, sempre
Ao meu pai, Adelino Chamiça, que nos seus 76 anos não é para mim um idoso, é o meu querido pai,
E neste caso, sobretudo, à minha querida prima Betinha, que tão dedicadamente e com tanto amor e carinho cuidou do meu tio, e pai dela, ao longo da sua fase de idoso, e nos últimos dois anos, já gravemente doente, até ao último dos seus dias entre nós,



Caro visitante virtual,

Escrevo hoje sobre os nossos idosos. Sim, porque os idosos são todos nossos, são primeiro e acima de tudo da sua família e, em segundo lugar da sua comunidade e da sociedade que ao longo de muitos anos ajudaram a construir e para a qual contribuíram. Contribuíram não apenas financeiramente, mas na construção das suas famílias, na educação dos seus filhos, na transmissão dos seus valores e cultura em casa, no trabalho, nas comunidades religiosas ou culturais que integraram ao longo da sua vida. O que hoje somos e temos, a eles se deve, é bom não esquecer.
Mas os tempos que vivemos e a mentalidade que impera na sociedade atual é não apenas desvalorizadora, como ingrata para com os seus idosos, esquece não apenas os seus direitos, mas também a sua dignidade e o seu enorme valor e experiência que não permite que partilhem com a sociedade de que ainda fazem parte, embora já não na fase em que vivem, de forma laboral e económica. Nesse sentido não estamos mais desenvolvidos que as sociedades primitivas ou as comunidades rurais, bem pelo contrário, essas estão bem à frente de nós, pois sempre souberam integrar e valorizar o papel dos seus idosos, da sua vasta experiência e de sabedoria de vida. Eram eles os grandes conselheiros de toda a família e mesmo da sociedade que com eles se aconselhava, os dignificava e valorizava, e eles sentiam-se felizes nesse papel que era justo e belo.
Ainda hoje me recordo bem do meu avozinho Francisco que me lembro de me contar belíssimas histórias e de o ver sempre com um sorriso nos lábios e um brilho feliz no olhar, apesar dos seus mais de oitenta anos, e da minha avó Conceição que viveu feliz no seio da família até aos seus felizes noventa e seis anos. Lembro-me de como os meus pais e tios falavam deles com muito respeito e carinho e de como nós netos os adorávamos e eles sentiam-se bem e felizes nos seus já frágeis e avançados anos.
Hoje fui a um lar visitar uma tia que este dezembro fará noventa e dois anos, um lar onde é fisicamente bem cuidada mas onde falta todo o calor humano de uma família ou de alguém que acarinhe os idosos e os valorize no dia a dia, Já várias vezes lá tinha estado, mas nunca como hoje, que ela está já bem mais frágil, me apercebi do quanto isso pode ser importante para prolongar a vida e manter feliz a vida de um idoso. O brilho dos olhos dela quando me viu chegar com o meu filho e quando lhe pus uma capa quentinha que levei para lhe oferecer e umas flores disseram mais que a sua frágil voz que já se ouve com dificuldade. 
À saída da nossa visita já parecia outra, a voz dela já se ouvia bem melhor, estava mais enérgica e até arriscou dar uns passos apoiada. Voltou a dizer-me o que há já vários anos me diz, que quer morrer ao pé de mim, que não sou sobrinha de sangue, mas sou de coração. Mas desta vez fê-lo de modo diferente, fá-lo sempre só quando ficamos as duas a sós. Desta vez disse que quinze dias antes de morrer ou vinha ela para ao pé de mim ou eu para ao pé dela. E eu, mais uma vez lhe disse que sim. Disse-lhe que sim porque gosto muito dela e disse-lhe que sim porque quero que sinta esse conforto ao partir, poder partir junto de alguém de quem gosta muito e que sabe que a ajudará a partir em serenidade. 
Há poucas semanas perdi um tio de quem gosto muito, o meu tio Aníbal. Estava muito doente, de uma doença terminal, mas pode partir no aconchego carinhoso da família. Este sempre em casa, apesar dos tratamentos que teve que fazer no hospital e de um ou outro internamento, e só nos últimos dias foi novamente hospitalizado e a família, avisada da gravidade terminal da situação, ficou a acompanhá-lo. Eu vi-o pela última vez poucos dias antes de partir. Não fiz ideia de quando partiria, mas pelo baço do seu olhar, a fragilidade do seu corpo e da sua voz, compreendi que estaria para muito breve. Era um homem muito alto e sorridente, um tio que gostava muito das sobrinhas e de brincar com as sobrinhas, tenho essa minha memória de criança muito viva. Era irmão da minha mãe e adoravam-se um ao outro. Para mim, quando ele partiu não foi só ele que partiu e de quem eu tanto gostava, partiu com ele mais um bocadinho da minha mãe, mas quer um quer o outro muito amados e acarinhados pelas respetivas famílias. E é assim que se deve partir. É assim que se tem o direito de partir. 
Há cerca de dois anos ajudei um amigo a partir na minha presença e na da filha. Deixo aqui o nome dele, numa despedida final de que sei que muito gostaria, pois pude fazê-la presencialmente no momento da sua partida. Era o Carlos Joubert Chaves. Tinha um cancro em estado muito avançado e estava hospitalizado já na fase final quando foi descoberta a doença. A última vez que o visitei em casa levei-lhe um bolo que tinha feito e para espanto meu ofereceu-me uma máquina fotográfica vermelha porque como disse na altura já sabendo que se encontrava muito mal, queria oferecer-ma antes de ir para o hospital pois não sabia se dele regressaria, e de facto não regressou. Naquela altura não imaginei o quanto isso pudesse ser verdade. Tinha-se reconciliado com a filha pouco tempo antes e estava muito feliz com isso. E foi a filha, Diana, que sabendo que ele gostaria de partir comigo ao lado como sua grande amiga que o visitava regularmente que me telefonou um dia a dizer que o hospital a tinha avisado que ele duraria poucas horas. E lá nos encontrámos as duas. Nunca hesitei e em o acompanhar nessa sua partida final, embora nunca tivesse passado por uma situação semelhante porque infelizmente a minha mãe faleceu no hospital, durante a noite, de forma súbita e por isso não teve o conforto de carinho nas suas últimas horas, mas teve-o poucas horas antes e sei que para ela foi muito importante e tenho muita pena de não ter podido ficar a segurar na mão dela até ao último minuto como fiz com o Carlos, ver-lhe os últimos sorrisos, na companhia da filha, responder-me com lágrimas de comoção a escorrer pela cara quando lhe perguntei se me reconhecia, vê-lo agitado quando cheguei e serenar à medida que ia ouvindo conversar com ele e relembrando histórias da nossa amizade de amigos comuns. E foi nesta tranquilidade serena, sorrindo debilmente quando eu evocava em tom suave momentos bonitos e até divertidos que esboçava um sorriso leve e a respiração foi acalmando lentamente. A Diana saiu por uns minutos do quarto e foi nesses minutos que se deu a passagem, leve, mas que eu senti e olhei para os vários monitores a que estava ligado e tive a confirmação. O Carlos adormeceu sereno para a eternidade, porque não partiu sozinho, partiu junto de quem queria partir, a pessoa que mais amava, a filha Diana e uma das poucas amizades que a sua turbulenta vida lhe havia permitido, eu própria. No dia a seguir foi o velório, onde já estava muita gente que se quis vir despedir dele, mas ele já tinha partido. Ainda assim sei que ele gostaria que lá estivessem e vários dos amigos que lá estavam eu não conhecia a não ser de nome porque ele me falava deles e eles não me conheciam, mas conheciam de nome por ele lhes falar de mim.
E é assim que eu acredito que se deve envelhecer e partir, acompanhado. Acompanhado por quem nos estima. E isso faz toda a diferença.
Eu acredito que esta nossa sociedade vai voltar a reaprender a dignidade de cuidar dos seus idosos depois de toda uma voragem da centração no trabalho como um bem maior e às vezes quase exclusivo. 
Acredito que todo o percurso de valores sociais tem que voltar a ser reaprendido, acredito que o isolamento a que tantos idosos tem sido condenados e ao que muito se vem falando sobre isso vai abrindo cada vez mais perspetivas sobre o quanto isso é injusto, desumanizante, cruel e empobrecedor do ponto de vista humano e cultural para as sociedades e para as novas gerações. Acredito que as novas gerações venham a ser mais atentas aos seus idosos.
Caro visitante virtual, neste tempo que se aproxima do Natal, não esqueça os seus idosos, se puder leve-os para passar o Natal consigo, no aconchego carinhoso de quem lhes quer bem e para quem não são um estranho, mas sim um ser querido e amado.
E, não apenas no Natal, mas em cada dia, não esqueça o papel que os seus idosos tiveram na sua vida. Eu sei o papel que os meus idosos tiveram na minha vida, enorme, extraordinário e que continuam a ter, já não apenas para mim, que sou filha, agora também para os meus filhos.

Um feliz Natal para si, caro visitante virtual, e volte sempre a este "Sopro de Esperança" que é escrito para si que o lê, seja em que parte do mundo se encontrar.

C.C.