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17/11/2016

Mesmo de um tronco seco podem surgir rebentos viçosos


Caros visitantes virtuais,

Escrevo-vos hoje sobre as coisas bonitas que podemos encontrar nas nossas vidas se a elas estivermos atentos e da genuína felicidade, serenidade e plenitude que nelas encontramos se as valorizarmos porque como nos demonstra a natureza, até de um tronco seco podem surgir rebentos viçosos.
Na minha perspetiva o conceito de felicidade pode ser muito redutor se concebermos a felicidade como resultante de sucessos pessoais, profissionais, financeiros ou sociais. Não considero que desses sucessos resulte uma alegria interior que, essa sim, contribui para o bem-estar, serenidade e sentido de plenitude do indivíduo, simplesmente porque esses sucessos, sempre passageiros e superficiais, se cultivados e não colocados em perspetiva, podem originar sentimentos de exacerbação do ego, de auto-satisfação, de autoadulação e de arrogância que em vez de aproximarem os indivíduos dos outros antes os afastam e colocam em falsos pedestais que a vida, a seu tempo, se encarrega de desmoronar. 
A felicidade como a concebo é uma opção de vida; uma postura perante nós próprios, perante os outros, perante o mundo, e para mim que sou crente, também perante um poder superior que identifico como Deus. Uma postura de abertura à imensidão da vida com todas as riquezas e turbulências que ela implica porque o ser humano é rico, mas também complexo. E acredito que essas turbulências não são nem castigos divinos, nem azares do destino.
Muitas vezes temos nós próprios alguma responsabilidade nas turbulências que surgem nas nossas vidas e acho importante estarmos conscientes e atentos para através do autoconhecimento, da honestidade e da humildade atuar nelas de forma positiva procurando identificar os nossos passos em falso, as nossas inseguranças, os nossos medos e os nossos erros. E essa postura permite-nos não nos posicionarmos perante a vida nas suas turbulências nem como vítimas nem como desistentes, mas antes como indivíduos capazes de reconhecer as suas limitações e de ter vontade de as superar para o seu próprio bem-estar e o dos que os rodeiam. As turbulências permitem-nos ainda conhecer mais profunda e genuinamente nós próprios e os outros e, se para elas estivermos despertos e disponíveis a aprender, permitem-nos crescer e amadurecer interiormente.
É certo que há também turbulências completamente alheias à responsabilidade do indivíduo como é o caso das doenças, de situações de guerra ou outras situações de violência, de situações de injustiça social e outras. Mas mesmo nessas situações-limite o ser humano difere na forma como se posiciona perante si próprio e os outros.
Acredito que também nessas situações a postura que temos perante a vida nos faz viver as mesmas de forma muito diferente. Podemos situar-nos como vítimas revoltadas consumindo as nossas energias vitais no sofrimento físico, psicológico e social, e por vezes também inveja dos que vivem em melhores condições, e essa via coloca-nos num pântano infértil de onde é muito difícil sair e onde as energias despendidas nos fazem afastar cada vez mais dos outros e nos podem mesmo fazer afundar cada vez mais na infelicidade e no desespero. Ou, podemos, apesar do sofrimento físico e psicológico, procurar ajuda para o minorar e a pouco e pouco procurar retemperar energias e direccioná-las para algo positivo. E é sempre possível, seja em que situação for, fazer algo de construtivo nas nossas vidas, fazendo do luto um ato de respeito perante a nossa própria dor e dignificando-nos ao transformá-lo em algo positivo para nós próprios e para os outros. 
Eu gosto de descobrir e de me deixar contagiar por pessoas que vou encontrando, ouvindo e lendo que souberam transformar as adversidades em novos projetos de vida valorizadores de si próprios e da sociedade. E, se estivermos atentos, estamos rodeados de pessoas que em qualquer momento da sua vida tiveram que vencer turbulências e o fizeram rompendo as amarras da amargura e seguindo em frente e redescobrindo a alegria de viver em projetos de vida que procuraram reinventar à luz das suas novas realidades. Essas pessoas são fontes de coragem e esperança para quem está atento às suas realidades e a tanto que podemos aprender com as suas experiências corajosas e transformadoras de vida. Para quem, como eu, acredita num poder superior, são ainda fontes de Fé, de Fé em si próprios, na vida e, sobretudo, numa força espiritual que nos transcende, nos inspira e nos fortalece numa dimensão que está para além de nós próprios e com a qual nos sentimos em comunhão se a alimentarmos com reflexão, meditação, oração e dedicação ao nosso próprio bem e ao bem dos outros.
Assim, acredito nessa felicidade que reside em apreciar e valorizar as pessoas e a vida no que têm de genuinamente importante para o interior de cada um de nós. E, essa felicidade é possível mesmo nas turbulências porque não resulta de condições exteriores, antes nasce dentro de nós e da nossa postura perante a vida.
Essa felicidade que nos faz apreciar o que verdadeiramente merece ser valorizado é geradora de alegrias que permanecem, de uma sensação de conforto e serenidade interior, de comunhão com a imensidão e universalidade do ser, e, para quem é crente, que é o meu caso, de sensação de pertença e harmonia com uma plenitude superior.
Deixemos, pois, brotar ramos viçosos mesmo quando o tronco das nossas vidas está seco, procuremos dentro de cada um de nós as energias revitalizadores e descubramos a nossa fonte interior da felicidade. É um percurso pessoal que vale muito a pena porque nos abre à vida, aos outros e a nós próprios de uma forma que nos faz sentir felizes, contribuir para a felicidade dos outros e em harmonia espiritual, para quem procura essa dimensão.
Até ao meu próximo post e obrigada por ter voltado uma vez mais, caro visitante virtual,

C. C.