Caro(a) visitante virtual,
Lembro-me bem de muito ver e ouvir na RTP e imprensa escrita sobre a controversa história de amor entre Francisco Sá Carneiro, então Primeiro Ministro de Portugal, casado e com filhos, e Snu Abecassis, da D. Quixote, estrangeira, também ela casada e com filhos. A palavra "amantes" era uma palavra que se colava à história pessoal destas duas figuras públicas, cada um deles com respeitáveis laços familiares que a sociedade reconhecia e valorizava. A todo o momento se esperando que a normalidade esperada se repusesse, que o devaneio terminasse e que, passado o fogo da paixão, as elites políticas pudessem sossegar os seus medos de perda de força de liderança de um homem carismático de quem o país tanto precisava, pouco ou nada se falando sobre o importantíssimo papel da Snu à frente das publicações D. Quixote e o quanto ela havia sido corajosa e aberto espaço, apesar das visitas constantes e ameaças pessoais da PIDE, para publicar vozes arejadas e corajosas como a do homem por quem acabou por se vir a apaixonar e também ele por ela, com igual determinação.
Nunca me esqueci do quanto me impressionou já na altura a coragem de ambos por, apesar de tudo e apesar de todos, com toda a transparência, assumirem o seu amor publicamente, com toda a dignidade. a forma corajosa como ambos, cada um com as respetivas famílias, assumiu abertamente o amor vivido e lamentou o sofrimento que isso causava inevitavelmente às mesmas. Poderíam não o ter feito. Poderiam ter vivido o seu amor na clandestinidade e com todo o apoio social e popularidade sem serem questionadas, mantendo a aparência dos seus casamentos sólidos, como moldura perfeita para o aplauso religioso, social e político. Não o quiseram fazer.
E, não o quiseram fazer porque o amor que sentiam um pelo outro era genuíno e demasiado belo para ser vivido escondido, como se de um mal se tratasse que importa encobrir. Um amor a cores não se deixa viver na penumbra porque não é essa a sua natureza, precisa de sair para fora, andar ao ar livre, interagir sem esperar horas tardias ou espaços vedados. Um amor que aceita não se mostrar aos outros é um amor frágil, passageiro, que sabe que pode viver contido e limitado porque não será por muito tempo. Será o que for, certamente não será amor. E o amor de Snu e Francisco era amor, e por isso digo que era um amor inspirador e continua a ser um amor inspirador.
Também inspirador porque um e o outro o puseram à frente de qualquer outro objetivo: sucesso político, reconhecimento social, popularidade e até paz pessoal. É este o amor que vale a pena ser vivido, um amor em que o outro (a outra) importa de tal maneira pelo que é que o resto se torna secundário.
Lembro-me de quando vi o filme, de ter pensado que só uma mulher tão bonita poderia inspirar a um homem tão grande paixão e amor.
Foi uma reação de pele, de imediato, de alguém que nunca sentiu o privilégio de um amor assim, apesar de já tudo ter dado para que isso acontecesse em mais de meio século de vida.
É provavelmente uma reação que muitas mulheres e muitos homens que como eu não tiveram ainda esse privilégio de pensar que só a pessoas absolutamente extraordinárias é possível vir a experienciar um amor assim.
Assumo que no momento fugaz em que fiz esse juízo, distorcido pela minha história pessoal, fui injusta na minha avaliação, ainda que por segundos, mas partilho-a porque muitas vezes pelas mesmas razões se fazem juízos deste tipo que perduram injustamente e ferem também quem os faz. Snu Abecassis era de facto uma mulher lindíssima, mas era muito mais do que isso, era a mulher que era e foi pela mulher que ela era que mereceu todo o amor que teve. O mesmo tendo sucedido com Francisco Sá Carneiro. E tiveram ambos a felicidade de coincidirem no sentimento genuído de amor um pelo outro. E é aqui que está a chave da beleza desse amor.
Sempre gostei de ver relações amorosas felizes, sempre as achei inspiradoras e continuo a achar.
Não falo de relações postiças, de relações de parasitismo ou de manipulação, de acomodação de mortos-vivos, chame-se-lhes casamento, união de facto ou não se lhes chame nada. Não falo dessas relações porque não importa desperdiçar o meu tempo e a minha atenção com elas, cada um dos que neles vive saberá se nelas quer permanecer, não é da minha conta.
Falo de relações genuínas, não importa há quanto tempo durem, mas que existem, em que cada um se sente feliz com o outro como é, e apesar do que é; em que cada um sente que a sua vida é mais feliz por ter o outro ao seu lado em cada dia; em que cada um sente que no fim do dia, num bom ou num mau momento quer que seja aquela pessoa e não outra o seu ombro de apoio, a sua voz ao ouvido, a sua carícia no rosto, a palmadinha nas costas, o afagar dos cabelos, o olhar que serana o espírito... o porto de chegada.
Muitos e muitas de vós queridos amigos e amigas, e visitantes virtuais que me lêm, já encontraram o vosso porto de chegada, e isso sente-se, e é inspirador. Estou a escrever estas linhas e a lembrar-me de casais amigos que conheço que estão casados alguns há mais de 30 anos, outros menos, casados, em uniões de facto ou simplesmente juntos, não importa, o que importa é o quanto o vosso amor é inspirador, não apenas para vós, mas também para quem não teve ainda a felicidade de encontrar esse porto de chegada mas que continua a acreditar que ele existe, também para si. Poderá é nunca o vir a encontrar porque o ruído de tantas outras coisas nos passa mensagens erradas que não é fácil descodificar o caminho, as emoções erradas que se fazem passar por certas, os afetos destrutivos que fazem ruir a esperança que cada dia temos que reconstruir para continuar a acreditar que talvez para quem ainda não chegou a esse porto, um dia lá consiga chegar e valerá certamente a pena.
A quem já encontrou esse amor, desejo que olhe bem para ele e o valorize se nunca o fez. Que o valorize todos os dias, pois cada dia ao lado de quem o amo como é e que também ama como é, apesar dos pequenos nadas que todos temos, é um dia precioso, duplamente valioso, porque é partilhado com quem merece e com quem o faz feliz.
A quem ainda já encontrou esse amor e o perdeu. Se o perdeu verdadeiramente foi apenas para a morte, pois uma amor deste tipo não se deixa vencer pelos obstáculos da vida do dia a dia, cresce com eles e apesar deles; não se escoa na banalidade do tempo a passar, porque cada dia acrescenta história comum, reforça laços e descobre a necessidade de se manifestar porque o amor é em si mesmo expressão de afeto e de emoções pelo outro. Se não foi isto que perdeu, se o que perdeu não foi para a morte, não perdeu amor, perdeu qualquer outro sentimento, emoção ou confusão, mas não amor. O amor não acaba. Pode é nunca ter sido amor. Correspondido, naturalmente, pois não o sendo, também não é amor, é seja o que for, talvez nem importe saber o que foi, pois certamente já deu nesse caminho tudo o que era de si e não bastou, talvez tenha mesmo dado mais de si do que devia ter dado e deixou passar o tempo que era seu e não viveu, vegetou.
Seja qual tiver sido a circunstância, não importa agora se não encontrou ainda o amor inspirador que vale a pena viver, aquele que é leve todos os dias, porque o vive como se respirasse, naturalmente. Porque quem caminha consigo vai ao seu lado, não atrás, nem à frente, mas a seu lado.
Porque quem caminha consigo o olha nos olhos e lhe sorri grato por o ter a seu lado, seja quem for, o que faz, seja qual for a sua beleza ou a falta dela, a alegria ou a falta dela, a saúde ou a falta dela, será sempre bom sentir o calor da sua mão ou a frescura da sua mão.
É esta, no meu entender, a única forma de amor romântico que vale a pena. E é aquela em que sempre acreditei. ter lá chegado ou não, não importa.
O que importa é a genuinidade com que vivi o que acreditei que fosse.
O que me importa é em cada dia ser eu própria e sentir-me bem com quem sou, apesar dos meus pequenas nadas que não são comparáveis aos de nenhuma outra pessoa porque não têm que ser. Isso é um exercício inútil e eu não gosto de coisas inúteis porque há tanto de útil e agradável para fazer que nem um segundo vale a pena desperdiçar com o que não merece a nossa atenção.
O que importa é que escrevo este post independentemente de vir a ser lido por 1 pessoa, 1000 ou 10000.
O que importa é que ao escrevê-lo, já foi bom para mim e será tanto melhor quanto mais ele for útil nem que seja a apenas 1 visitante virtual que o leia porque estamos juntos nesta caminhada de auto-conhecimento e auto-descoberta e todos procuramos o mesmo, embora lhe demos nomes e formas diferentes: sentir-nos bem connosco e com os outros, chame-se-lhe equilíbrio, felicidade, amor ou realização, ou simplesmente: VIDA.
Um abraço, caro visitante virtual, e boa caminhada, que vá encontrando pistas para o que procura e, quando encontrar, continue a caminhar ao lado de quem o merecer.
C.C.




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Apreciei de modo especial a frase escolhida por Guimarães sobre a matéria: " O património somos todos nós". É bom que tenhamos presente esta grande verdade e nos valorizemos a cada passo, constituindo essa valorização um estímulo diário para a criatividade e inovação cujo potencial possuimos e que se vai revelando em tantos traços da cultura portuguesa seja ela erudita ou popular.
















