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15/04/2012

A magia acontece... com Mariza de volta aos palcos



Caros visitantes virtuais,

Falo-vos hoje de uma personalidade ímpar da cultura portuguesa que ontem regressou aos palcos: Mariza. Comemorou também dez anos de carreira, mas sobre esse aspeto, nada disse. Para ela o importante era estar de volta à sua gente, mulher renovada para o fado, pois redescobriu no mesmo novos sentidos agora como jovem mãe.
A grande fadista portuguesa, premiada nacional e internacionalmente, tem esgotado palcos de espetáculo nos cinco continentes. Transporta com ela não apenas a Língua e a Cultura Portuguesa, mas também a ligação profunda de Portugal aos seus países irmãos de expressão portuguesa, num cruzamento de sons de África e do Brasil.
Ontem, uma vez mais, arrebatou a alma e todos os sentidos dos que estiveram presentes no Coliseu dos Recreios, portugueses e estrangeiros, compreendendo ou não a Língua Portuguesa. A paixão inerente ao Fado é uma linguagem internacional, o que explica que tenha sido, em 2011, declarado Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO (Sobre este aspeto nada mais refiro pois escrevi sobre este assunto o meu post disponível em: http://celiachamica.blogspot.pt/2011_11_01_archive.html ).
Mariza, com os seus excelentes músicos, são Portugal e os Portugueses no seu melhor.
É não apenas um enorme prazer, mas também um orgulho ouvi-los e vê-los atuar, esmagando naqueles momentos mágicos todas as sombras de crise e imagens menos positivas que lá fora e cá dentro os outros ou nós próprios tenhamos sobre Portugal.
E o que é mais fantástico é que ouvir Mariza e os seus guitarristas e percussionista não é um anestesiante que nos faz esquecer mágoas. É certo que as pomos de parte, mas porque o que ouvimos é de tal modo de excelência que nesses momentos vivemos a grandiosidade que também fomos e continuamos a ser enquanto povo e enquanto cultura portuguesa.
A um dado momento, num certo poema que já não consigo precisar qual, quando evocou a palavra “Portugal” e a sua condição, senti que Mariza naquele momento tinha presente a tristeza que nos atravessa a alma e a existência nos dias que correm. Pode ter sido uma simples perceção minha ou talvez a mágica comunhão que ela consegue estabelecer com o seu público.
Mariza, sem vedetismos, deslocou o palco para o meio do seu público. Veio cantar no meio da sua gente, entre as cadeiras da plateia do Coliseu. Pude vê-la de perto a cantar com uma intensidade que unia em profundeza cada um de nós àquela mulher simples, nascida em Moçambique, em 1973, que viveu na Mouraria, estudou nas escolas públicas de Lisboa e pisou os mais prestigiados palcos do mundo. Mariza mostra-nos em cada atuação sua que com talento o sonho torna-se realidade se por ele lutarmos, sem desistir, mesmo quando em tempos tenha havido quem não acreditou no nosso talento, o que também sucedeu com a própria. Mariza teve que construir o seu percurso, e Portugal deve muito ao extraordinário percurso que já realizou nestes primeiros dez anos desta que espero seja uma longa carreira da fadista que o jornal inglês “The Guardian” identificou como “uma diva da música do mundo”.
No meio da sua gente, de todas as condições sociais, quando cantava “Ó gente da minha terra” teve que parar tolhida pela comoção de tanto carinho com que era inundada pelo Coliseu em pé, a acolher o seu regresso palmas, acenos, lágrimas e sorrisos que a sua voz e interpretação faziam jorrar em cada fado. Retomou a atuação já no palco. Aqueles momentos de travessia até chegar ao palco, e onde se ouviu de novo a sua voz, foram de um silêncio tão belo como magnífica a voz que o rompeu. O talento ímpar e a entrega genuína de uma artista portuguesa ao seu público, ao público que a escuta não apenas com os ouvidos, mas com toda a sua alma, de Portugal e do Mundo.
O sentimento que liga Mariza à sua gente, onde me incluo com toda a humildade, é o que nos ajuda a levar para a frente este país. Neste espaço mágico da alma portuguesa, de gente forte e livre, o destino faz-se pelas suas próprias mãos, sem políticos e sem “troika”.
É a força de continuarmos a acreditar no melhor que somos e que conseguimos fazer que nos valoriza e que valoriza o nosso país. Porque é esse o nosso património valiosíssimo como povo, com forte presença no mundo inteiro, desde há mais de cinco séculos, sobretudo desde os Descobrimentos.
Partilho convosco a letra de um dos fados que Mariza ontem cantou, mas numa interpretação que fez do mesmo, na China, em Shangai, em 2010. Este poema, com letra de Fernando Pessoa, é para mim um dos textos literários mais bonitos e intensos de sempre sobre o amor e a paixão arrebatadora numa simplicidade, liberdade, audácia e intimidade comovente. Neste poema, o amor não tem limites, solta-se sem defesas numa procura desenfreada do outro, e quando se encontra, a magia da intimidade é perturbadora e comovente.

“Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta, por fonte,
Caminhais aliados.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por prados desertos
Sem ter horizontes,
Caminhais libertos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.”
(Fernando Pessoa, 24-10-1932)

Mário Pacheco musicou este poema de forma tão bela e tocante que parece quase impossível que o mesmo fosse musicado de outro modo que não aquele.
Mariza interpreta este fado de forma tão arrebatadora que o vive na sua voz e em todo o seu corpo. Deixo-vos esta beleza imaterial e quase sobrenatural, de letra, de música e de interpretação:
 www.youtube.com/watch?v=cJQdq01tkfM

Parabéns à Mariza e aos seus músicos. Obrigada por partilharem connosco e com o mundo o seu enorme talento e lançarem entre nós sementes de esperança que certamente florescerão.
Uma boa semana, caros visitantes virtuais, e ouçam Mariza que estará no próximo dia 20 no Porto se puderem, ou nas inúmeras gravações que já existem dos seus Fados.
Um abraço virtual,

C.C.

26/03/2012

Ter fome e ter sede de infinito...



Caros visitantes virtuais,

No passado dia 21 de março celebrou-se o Dia Mundial da Poesia que a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) instituiu em 1999, na sua XXX Assembleia Geral. O meritório objetivo é estimular a leitura, escrita, ensino e publicação da poesia no mundo. E todos sabemos o quanto Portugal e o mundo precisam de poesia nos tempos que correm.
Mais informação sobre esta efeméride em: http://www.un.org/en/events/poetryday/
A poesia é mágica, porque um mesmo poema é sentido por cada pessoa de modo diferente, mas também por cada pessoa de modo diferente consoante o seu estado de alma e mesmo as diferentes fases da sua vida.
A poesia fala para dentro de nós e conta-nos segredos que são nossos e que sem ela não descobriríamos porque nos ajuda a aprofundar o ser, a sensibilidade, o amor, a beleza e a felicidade.
Camões, Pessoa e tantos outros poetas e poetisas de todas as gerações transportaram e continuam a transportar a língua e a cultura portuguesa deixando pegadas de Portugal pelo mundo e pelo tempo.
Florbela Espanca, Natália Correia e Sophia de Mello Breyner, entre outras, deixaram-nos a força das suas palavras arrebatadoras mostrando bem que a sensibilidade, a audácia, e a sublimidade da poesia não têm género, mas sim intensidade e beleza.
A poesia é sublime e imortal.
Partilhar a poesia com alguém é criar laços que deixam marcas.

Deixo-vos com uma poesia de Florbela Espanca que tão bem descreve os poetas: “Ser Poeta”.

"Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"


Este poema numa belíssima interpretação de Luís Represas:
www.youtube.com/watch?v=VJaNP_jzHRk

Caro visitante virtual, como dizia o nosso querido poeta António Gedeão: "o sonho comanda a vida/(...) sempre que um homem sonha/o mundo pula e avança/como bola colorida/entre as mãos de uma criança." Não deixe nunca de sonhar… e leia poesia, redescubra os seus poetas favoritos e descubra os que não conhecia. E, porque não?… Descubra o poeta que há em si.

Uma boa semana e um abraço virtual,

C.C.

05/02/2012

A energia renovadora do mar




Caros visitantes virtuais,




São Pedro de Moel foi seleccionado para um projecto de produção de energia a partir das ondas.


Há várias entidades internacionais interessadas neste tipo de produção de energia verde, amiga do ambiente.


Tenho memórias infantis desta praia cuja paisagem natural continua sem estar afectada por ciclos de turismo, nem sempre planeados de modo a respeitar o equilíbrio e a beleza natural dos locais.


Este projecto de captação de energia a partir das ondas tem um potencial imenso na vasta costa atlântica portuguesa. Para Portugal, muitas vezes a esperança e o desenvolvimento vieram precisamente da sua vertente marítima, basta lembrar os descobrimentos e o que tanto fizeram pela história e cultura de Portugal, cá dentro; e para transportar a nossa língua e cultura pelos cinco continentes.


O mar é para o próprio indivíduo uma fonte de revitalização física e mesmo psicológica, de equilíbrio, bem estar e prazer. Que o digam os nossos surfistas e os surfistas de todo o mundo que nos visitam.


Para os pescadores o mar é fonte de vida e paixão; para os artistas vários (escritores, pintores, cineastas etc) é fonte de arrebatamento e de inspiração.


Eu, como comum cidadã deste imenso universo, quando mergulho os olhos no mar, sinto-me pequenina face à sua imensidão, mas sinto-me também revigorada e tranquilizada por aquela beleza enorme, aquática e tão intensa como se fosse um imenso ventre materno pleno de vida.


Caros visitantes virtuais, convido-vos a olhar o mar e descobrir nele a esperança de novos projectos revitalizadores da economia do nosso país, inspiradores de belezas artísticas, fonte de uma agradável e serena contemplação que vos faça sentir renovados e revigorados, tranquilos e com vontade de partir à desboberta do que a nossa costa atlântica tem de tão belo para nos revelar. Porque Portugal e o mar são um abraço constante e umbilical, não apenas em época de veraneio e de movimentação balnear. A beleza do mar está sempre presente, todo o ano. Deleitemo-nos com ela.


Votos de uma boa semana,


C.C.