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11/04/2016

Amar o outro é fonte de esperança

(Caravana cigana pintada por Vincent Van Gogh)


Chama-se Irina e é uma cigana búlgara que pede esmola à porta das igrejas. Escondem as suas formas femininas farrapos de andrajos mal cheirosos e os traços do seu rosto estão encobertos por uma falta de higiene que nem imaginamos possível.
Está frio e a pedra gelada da calçada é o seu único assento com que convive com familiaridade. Começo de pé a falar com ela, mas em breve me curvo sentada sobre os meus joelhos rendida ao fascínio do seu destino errante. Passa por nós um carro preto desportivo que ascende a somas que sustentariam e dariam futuros prósperos a todas as crianças de uma caravana, mas a indiferença de quem o conduz é total.
Transeuntes voltam-se curiosos ante a contemplação de duas mulheres diferentes que somos animadas numa conversa que visivelmente nos faz a ambas felizes. Ela, orgulhosa, exibe-me o seu tesouro mais precioso, a fotografia dela com os seus filhos, quatro rapazes, dois entre os 12 e os 10 anos, um mais novinho de cerca de 6 anos e Christine com cerca de dois anos. Conta-me que partiu de Sófia para deixar um marido incapaz de dar futuro aos filhos.
Entregou-se em Espanha em troca de um melhor destino para os filhos. Tudo lhe parece  normal para dar aos seus filhos um melhor do que o seu e certamente, na sua perspetiva, melhor que o que teriam no seu país-Natal. Essa entrega depositou-lhe no colo mais um filho e a certeza de que não era ainda ali o seu lugar. Chegada a Portimão achou que talvez um africano fosse a resposta ao seu anseio protetor e dessa nova entrega nasceu a bela Christine, uma belíssima cigana loira de tez morena e olhos grandes evocando os grandes espaços da pátria de seu pai que nunca conhecerá.
Irina nem se lembra dos nomes dos pais dos seus filhos da diáspora, mas o rosto ilumina-se-lhe num brilho de felicidade quando fala de cada um deles. Aquele amor incondicional é quanto lhe basta para ser feliz e confia à divina providência o sustento para eles em cada dia, por ela passa bem com pouca coisa, ou mesmo nada.
Disse-lhe o meu nome e ela riu. Para mim chamas-te "Bonita", respondeu-me.
Há semanas no lugar onde ondem encontrei Irina estava Andrei, um polaco tímido que em segredo juntava dinheiro para depois de vários anos em Portugal regressar ao seu país de origem. O rosto cobriu-lhe de lágrimas de felicidade ao contar-me que ia regressar aos seus após esse fim-de-semana em que sabia já que recolheria o suficiente que lhe faltava para comprar o seu bilhete só de ida. Deixara a Polónia com a ilusão de um futuro melhor, de onde pudesse mandar dinheiro para a mãe  e os irmãos mais pequenos, mesmo passando a dura provação de passar sem a ternura de os abraçar.
"Não aguento mais", dissera-me. E fazia esta íntima confissão num estado de comoção que nos unia na mesma humana condição. "Parto já segunda-feira, senhora". Adverti-o para que tivesse cuidado para que no abrigo onde ia dormir lhe não roubassem o dinheiro que juntara e os documentos necessários para a viagem porque tal sucedera a um amigo sem-abrigo. Agradeceu-me porque não pensara no assunto. A sua alma límpida não o alertava para que nem sempre o ser humano nos surpreende pelo seu melhor. "Vou dormir em cima de tudo", tranquilizou-me. E repetiu várias vezes esta cautela que era mais para ele que para mim.
"Senhora". Chamou-me já depois de me ter despedido dele e desejado boa sorte para o regresso.
Voltei para trás e Andrei sorria com um brilho nos olhos que me comoveu quando vi que de entre os andrajos retirara uma fotografia. Debrucei-me sobre a fotografia e deixei que me explicasse em detalhe cada espaço dos campos onde regressaria e os seus amados familiares que lá iria encontrar.
Nos dias seguintes sempre que via um avião levantar voo lembrava-me de Andrei e sabia que não nos esqueceríamos um ao outo, porque não se esquecem as pessoas que verdadeiramente nos ouvem e com quem verdadeiramente falamos de coração aberto. Passamos pelas vidas uns dos outros enriquecendo-nos mutuamente.
Para mim, é no amor incondicional que temos pelos filhos, pais e irmãos que radica a fonte da felicidade que nos faz ver que cada dia vale a pena ser vivido em plenitude, usufruindo da alegria de os ter bem, com saúde, mais perto ou mais longe de nós, mas sempre no centro do nosso coração.
E se a esses que nos merecem a nossa entrega incondicional em cada dia juntarmos os nossos amigos, que escolhemos e criamos com profundos laços de afeto que perduram no tempo, a nossa felicidade é ainda maior.
No fim-de-semana passado quando estava sentada de cócoras conversando com Irina, senti-me plenamente feliz pela bênção que Deus me deu de me aproximar de tanta gente desconhecida e de com a minha proximidade genuinamente humana e solidária ter a capacidade para com as minhas palavras de compreensão e o meu sorriso afetuoso fazer brotar, dos seus rostos carpidos pela solidão, a dor, o desespero ou a miséria, os sorrisos mais radiosos que tenho visto.
E quando tanta vez ao longo destes cinquenta anos de vida me tenho interrogado sobre quem sou, durante essa conversa com Irina senti a resposta no interior de mim mesma e aprendi-a de Jesus Cristo, cuja Fé sustenta os meus dias.
Como diz a Bíblia, Cristo quando interrogado pelos apóstolos sobre quem era ele, para poderem esclarecer as multidões que o seguiam respondeu prontamente. "Eu sou Aquele que Sou."
E eu compreendi que sou aquela pessoa que fica feliz por poder amar aqueles que muito ama, pelas grandes e longas amizades que preserva e alimenta e todos os desconhecidos e desconhecidas com quem partilha momentos de tantas vidas que vale a pena escutar e acarinhar. Compreendi que sou essa pessoa que dentro de si tem uma alma que a torna feliz quando está só, a contemplar as belezas interiores, mas também quando só ou acompanhada se delicia com as pequenas e grandes maravilhas da natureza e da cultura.
É bom ter o privilégio de descobrirmos quem somos, vale a pena partir nessa viagem interior à descoberta de si mesmo, caro visitante virtual e verá que quando se encontrar chegará à mesma resposta que eu: Cada um de nós é exatamente aquele que é.
E quando isso nos basta para nos aceitarmos e encontramos a humildade de nos reconhecermos como um grão de areia numa praia maior, mas em que cada um de nós se não estivesse lá, não haveria praia. E quando isso ao mesmo tempo que nos faz sentir essa humildade nos faz sentir a grandiosidade da nossa diferença, porque cada um é apenas igual a si próprio, sendo cada um de nós indispensável e insubstituível, temos o que basta para nos reconhecermos como únicos e nos valorizarmos como tal aos nossos próprios olhos.
Nesta minha conceção de vida, não há lugar à competição, palavra e estímulo tão caros às nossas sociedades contemporâneas. Nenhum de nós é melhor que seja quem for, nem seja quem for é melhor que nós. Desgastar-se na competição é um desperdício e infértil desperdício de energias.
Não olhe mais para o lado para se comparar, caro visitante virtual. Não perca tempo com valores que nada valem. Olhe para si, encontre-se e siga por aí, por onde a sua alma lhe diz que se sente limpo, leve e confortável.
Não tenha pressa, vá usufruindo dos aromas que lhe chegarem às narinas, sejam de mar ou montanhas floridas. Sinta nos dedos a suavidade das pétalas ou as formas da areia do deserto escorrendo por entre os dedos até formar pequenas dunas, ou a frescura das águas de um riacho cujo curso é saltitante entre seixos brancos. Sinta na pele o calor a aquecer-lhe cada célula descoberta do seu corpo ou o frio a avisá-lo que se proteja enquanto vislumbra a neve que em flocos o salpica de branco.
E se nesse suave e doce percurso encontrar seja quem for, só ou em comunidade, ao ar livre ou numa tenda ou edifício de qualquer forma, a entoar cânticos, preces ou louvores a Deus, seja qual for o nome que lhe dado e a língua em que é comunicado, interrompa a sua viagem, junte-se a eles e, sendo crente ou não num poder superior, deixe-se invadir pela espiritualidade e descobrir a força mística que esse momento de encontro com o divino proporciona a quem a ele se abre.
Seja quem é, caro visitante virtual, siga sereno e confiante o seu caminho, sem pressas, entregue unicamente ao amor incondicional e à esperança que dele brota em cada dia.
Um abraço fraterno.
CC